A IA na seleção de talentos: como se destacar quando quem lê o currículo é uma máquina
A resposta não está apenas na tecnologia, mas em como a usamos. Os novos Agentes de IA vieram para nos ajudar a encontrar a agulha no palheiro. Podemos treiná-los para buscar com precisão, filtrar o relevante, utilizar algoritmos perfeitos e, sobretudo, conectar com nossos valores. Identificar imediatamente aquela pessoa com o ideal e nossos propósitos como organização. Tornar visível o que é valioso. E transformar o que antes era acaso em oportunidade.
Assim, a tecnologia se tornou aliada das equipes de recursos humanos para tornar mais eficiente o trabalho de revisão e seleção de candidatos. Hoje, muitas empresas se apoiam em sistemas de rastreamento de candidatos (applicant tracking system, conhecidos como ATS) e algoritmos de IA que filtram, classificam e sugerem perfis com base em correspondências técnicas. Segundo um relatório da Resume Builder, 82% das empresas já usa algum tipo de IA para analisar currículos. Isso significa que o filtro inicial ao qual um candidato enfrenta nem sempre é humano. Na Nearsure contamos com nosso próprio agente de GenIA com o qual selecionamos talento. Este desenvolvimento sofisticado nos permitiu reduzir o tempo nos processos de seleção em 30% e eliminou 40 horas de tarefas por mês. Ou seja, se a intenção é que o CV chegue aos olhos humanos, primeiro tem que passar pelo filtro dos algoritmos. E como se faz isso? Estes são alguns aspectos técnicos que podem ajudar.
O risco de ser mal interpretado por esses sistemas é real e significativo. No Brasil, um estudo da consultoria Heach Recursos Humanos revelou que 42% dos candidatos analisados podem ser automaticamente excluídos por sistemas de IA, mesmo sendo altamente qualificados. Entre os principais fatores de exclusão identificados estão a ausência de palavras-chave específicas, a formatação fora do padrão aceito pelo software e o histórico profissional considerado "não linear" pelos algoritmos.
O primeiro é falar a mesma língua que os algoritmos. Os sistemas de IA priorizam documentos que contenham palavras-chave muito específicas, geralmente retiradas da descrição do cargo. Por exemplo, se uma vaga menciona “análise de dados em PowerBI”, esse termo deve figurar assim no CV. Não vale disfarçá-lo nem dar como óbvio: é preciso escrevê-lo. Da mesma forma, ao adicionar as experiências profissionais, convém incluir as tecnologias e ferramentas com as quais se trabalhou. Podem ser mencionadas como skills, e também ajuda explicar como foram utilizadas em cada projeto ou tarefa.
Embora a tentação de fazer um CV criativo possa ser forte, nesta etapa convém priorizar a clareza. Tipografias legíveis, poucas cores, nada de colunas nem designs complexos. Recomenda-se usar negritos para destacar as funções principais, manter margens consistentes e organizar bem as seções.
Outro ponto importante: os títulos dos cargos. Algumas empresas usam nomes muito originais para suas posições (como “Arquiteto de Soluções Digitais” ou “Estrategista de Transformação de Negócios Digitais”); mas, se esses títulos não existem no mundo real ou parecem genéricos, é provável que um recrutador (ou uma IA) não entenda totalmente a que se dedicava o candidato. O melhor é traduzir essa função para um título padrão do setor ou incluir ambas as versões (a interna e a externa). O mesmo vale para experiências profissionais que ficam muito vagas: “Desenvolvedor de software” diz pouco se não for esclarecido se é frontend, backend, ou que tecnologias usava.
E o formato, como já identificado em recentes pesquisas, importa mais do que pensamos. Embora muitos ainda enviem seu CV em Word, o ideal é fazê-lo em PDF, já que os sistemas de IA e os filtros ATS são projetados para ler melhor este formato. Além disso, o PDF conserva a estrutura e evita que o conteúdo se desconfigure, algo que costuma acontecer com os arquivos Word. Quanto mais limpo e padronizado for o formato, melhor. O recomendável é organizar as seções e subseções de forma clara, para que seja fácil de entender tanto para os robôs quanto para os recrutadores que depois o revisam.
Porém, em meio a este cruzamento de dados, palavras-chave e filtros digitais, não se deve cair no erro de delegar completamente a redação do CV a uma IA. Sim, é possível usar ferramentas para polir a redação, corrigir erros e melhorar formatos, mas é preciso evitar que o conteúdo final soe genérico. Segundo um estudo da CV Genius, portal de recursos para carreira e plataforma para criar currículos, 80% dos recrutadores não gostam de ver currículos e cartas de apresentação gerados por IA. Pode parecer fácil passar despercebido, mas 74% afirmam que podem identificar quando a IA foi utilizada em uma candidatura. O conselho: usar a tecnologia como assistente, não como substituta. Cada trajetória profissional é única, e isso deve se refletir no documento.
Em definitivo, e na abundância de perfis, o que realmente se destaca é o autêntico. A própria voz, a história profissional que pode ser contada em suas próprias palavras. Vai despertar interesse o genuíno, o que conecta de verdade e o que inspira confiança.
*Herick Salcedo é gerente de Estratégia de Inbound de Talentos da Nearsure, uma empresa da Nortal.

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