quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Exposição fotográfica sobre comunidade quilombola entra em cartaz com histórias narradas por mulheres



Aberta ao público, gratuitamente, até 31 de março, em Goiana (PE), mostra reúne fotografias, relatos e documentos criados pelas moradoras da Povoação de São Lourenço, comunidade quilombola reconhecida desde 2005

A memória de uma comunidade pode viver nas conversas ao fim da tarde, nas festas compartilhadas, nos cantos religiosos e nas histórias transmitidas entre gerações. Na Povoação de São Lourenço, comunidade quilombola localizada no distrito de Tejucupapo, litoral norte de Pernambuco, essas lembranças ganharam forma em imagens, documentos e relatos reunidos na exposição “Povoação de São Lourenço: o tempo e o quilombo Catucá – Cultura, História e memória de um povo”, que abre para visitação até o dia 31 de março, mês dedicado às mulheres. 


A cerca de 65 quilômetros do Recife, o território está de portas abertas para receber moradores, turistas, pesquisadores e estudantes interessados em conhecer histórias narradas a partir do olhar de quem vive à comunidade diariamente. A mostra nasce de uma inquietação compartilhada por duas pesquisadoras quilombolas: como preservar saberes que sempre existiram na oralidade e que, por muito tempo, permaneceram sem registro?


A Povoação de São Lourenço tem origem entre os séculos XVIII e XIX, período marcado pela expansão dos engenhos de açúcar na Zona da Mata pernambucana. Ao longo das gerações, populações negras organizaram ali formas próprias de existência, estruturadas pelo trabalho coletivo, pela espiritualidade e pela transmissão de conhecimentos ancestrais. Reconhecida oficialmente como comunidade quilombola pela Fundação Cultural Palmares em 2005, São Lourenço abriga hoje cerca de 3000 famílias, formadas majoritariamente por mulheres marisqueiras e artesãs, cuja relação com o mangue e com o território sustenta a identidade comunitária.


A exposição ocupa a sede da AMPPSL - Associação de Marisqueiras e Pescadores da Povoação de São Lourenço, na Rua da Sucupira, nº 100, espaço construído coletivamente e que se tornou ponto de encontro cultural da comunidade. Idealizada pelas pesquisadoras Narely Carmo, historiadora em formação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e Crislaine Venceslau, antropóloga e turismóloga, a mostra surgiu a partir da percepção de que muitas histórias locais existiam apenas na memória dos moradores. A visitação pode ser feita de segunda a sexta-feira, das 9h às 11h30. Já no fim de semana e feriados, a programação ocorre das 10h às 16h. A entrada é gratuita. 


Na comunidade, cada pessoa guarda narrativas que se misturam à própria formação do território. Histórias de trabalho, espiritualidade, celebrações e convivência circulam principalmente pela palavra falada. Quando uma dessas vozes se despede, parte dessa memória coletiva deixa de ser transmitida. A pandemia de Covid-19 ampliou essa consciência. Entre as perdas sentidas pela comunidade está Dona Nanô, Mãe de Santo do quilombo, figura central nas celebrações religiosas e na vida social local. Seus cantos, as festas do terreiro e a tradicional distribuição de doces no mês de outubro permanecem vivos na lembrança dos moradores e reforçaram o desejo de registrar aquilo que sempre foi compartilhado pela convivência.


Fotografar, entrevistar e reunir documentos tornou-se, assim, um gesto de cuidado com o futuro. As pesquisadoras passaram a recolher imagens familiares, e pesquisar arquivos públicos, construindo um acervo que transforma experiências individuais em memória coletiva.


O resultado ganhou forma no que elas definem como uma cartografia afetiva do território. A cartografia, tradicionalmente, é a arte de criar mapas — aqueles que mostram rios, estradas e cidades. Na exposição, porém, o mapa é feito de histórias. Cada fotografia funciona como um ponto marcado, cada relato indica um caminho e cada memória revela um lugar importante para quem vive ali. Em vez de localizar distâncias, o visitante percorre experiências, como se caminhasse por um mapa desenhado por lembranças e vivências compartilhadas.


Os registros fotográficos, realizados tanto por câmeras profissionais quanto por celulares dos próprios moradores, foram impressos em cores e em preto e branco, emoldurados e distribuídos pelas paredes da associação comunitária. Ao todo, são 14 fotografias. 


As imagens são acompanhadas por legendas explicativas e recursos de audiodescrição, ampliando as formas de interação com o público e transformando a visita em uma experiência sensorial. Recortes de jornais e documentos históricos ajudam a situar a trajetória da comunidade dentro da história regional, lembrando que o território foi espaço de circulação e acolhimento de mulheres e homens escravizados durante o período colonial.


O protagonismo feminino conduz toda a narrativa expositiva. São mulheres que pesquisam, organizam arquivos, registram imagens e recebem visitantes, compartilhando histórias com naturalidade e orgulho. Marisqueiras, artesãs, mães e lideranças comunitárias aparecem como guardiãs da memória e também como autoras do processo de documentação cultural. A escolha de manter a exposição aberta durante o mês de março reforça esse reconhecimento, destacando trajetórias femininas que conectam ancestralidade e continuidade.


Cercada por paisagens historicamente associadas à cana-de-açúcar e aos antigos coqueirais, a comunidade desenvolveu uma vida coletiva marcada pela colaboração e pela criatividade cultural. As fotografias revelam festas, danças, momentos de trabalho e cenas da infância que expressam pertencimento e continuidade, aproximando visitantes de uma realidade construída pela convivência comunitária.


Além do valor cultural, a iniciativa fortalece o turismo comunitário já existente na região, ampliando o fluxo de visitantes e criando novas possibilidades de geração de renda para as famílias locais. Fundada em 16 de novembro de 2011 e atualmente presidida por Edijane Chyk, a Associação Quilombola de Povoação de São Lourenço abriga a mostra como parte de um movimento contínuo de valorização e salvaguarda do patrimônio cultural do quilombo.


A exposição fotografia “Povoação de São Lourenço: o tempo e o quilombo Catucá – Cultura, História e memória de um povo”, é realizada com incentivo da Secretaria de Cultura, Governo de Pernambuco, Ministério da Cultura e Governo Federal, por meio dos recursos da Política Nacional da Lei Aldir Blanc, em Pernambuco. 


Serviço

Exposição: Exposição fotográfica sobre comunidade quilombola entra em cartaz com histórias narradas por mulheres


Onde: AMPPSL - Associação de Marisqueiras e Pescadores da Povoação de São Lourenço - (PE);


 Período: até 31 de março



Visitação: aberta ao público

Entrada: gratuita


 Distância do Recife: aproximadamente 65 km


 Classificação: livre


Mais informações: https://www.saolourenco quilombo.com/blog 

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