Os agentes conseguem capturar o criminoso nazista e o filme recria o suspense para conseguir embarcar Eichmann em um avião para Israel, onde seria julgado. Nessa espera, tem uma cena em que estão ouvindo uma música que toca profundamente o nazista e ele se emociona às lágrimas. Um dos agentes não se contém e pergunta: se você é capaz de sentir essas emoções e amar sua família, como pôde matar tanta gente que não te fez nada? Eichmann respondeu calmamente que “eram judeus, não eram pessoas”.
Essa cena coloca em relevo uma forma de realizar o Mal, que é tirar da vítima a sua condição de ser: no caso, de ser humano. Uma característica universal da Psicopatia é a perda da capacidade de Empatia pelo Outro, tornando-o uma Coisa, um objeto de exploração.
A Neurociência descreveu nas últimas décadas os Neurônios-Espelho, que são responsáveis pela vontade de bocejar quando alguém está bocejando. Esse neurônios e redes neurais permitem que alguém sinta o que o Outro está sentindo, o que faz que a gente grite “Ai” quando alguém se machuca feio num jogo de futebol. Essas sensações dependem de uma capacidade de prever e perceber como é a experiência que outra pessoa está vivendo. Esse é o primeiro passo da percepção do Outro e da capacidade de ajudar alguém que está sofrendo. O monstro nazista bloqueou seus neurônios-espelho da percepção do sofrimento negando a essas pessoas a sua própria humanidade.
Outro mecanismo da maldade é o “Schadenfeude”, palavra alemã para a sensação de contentamento que temos quando alguém que fez algo errado e acaba se ferrando. Quando o time que eu não gosto toma uma goleada, por exemplo. A identificação com o Agressor gera essa satisfação, além do alívio de não estar na situação de fragilidade. Há um gosto de ver o outro sofrendo, e um alívio por não estar naquela situação.
Desde os primeiros hominídeos que há provas de cuidados com os doentes e velhos, e respeito pelos mortos. O que fez aqueles proto humanos escaparem da extinção foi a capacidade de colaboração e proteção mútua. Cuidar da vida de todos talvez seja uma experiência fundamental em nos tornarmos humanos.
O bilionário americano Jeffrey Epstein chefiou durante décadas uma rede de prostituição e tráfico de crianças e adolescentes, com atos de fazer inveja aos agentes nazistas. A característica de falta de empatia e desumanização das vítimas está estampada nos milhões de e-mails onde descuidadamente ele oferecia uma menina assim ou assado para um político ou um guru de autoajuda. Com a certeza de ser intocável pela lei, já que foi protegido por muitos anos por pessoas muito poderosas.
Existe o ditado que “O Poder corrompe, o Poder absoluto corrompe absolutamente “. O poder que realmente corrompe é o que subtrai das pessoas seu sentimento de humano, da sensação fundamental de proteger quem não consegue se proteger da covardia e do abuso.
Os Arquivos Epstein abrem um buraco na fechadura de quem, por ter recursos quase ilimitados, passam a se julgar semi deuses que não precisam respeitar os limites de sua condição humana. Estranhamente, ao adotar esse comportamento, dão passagem para a bestialidade que tentamos superar desse os neandertais. A bestialidade que bloqueia as sensações de empatia e cuidado com os fracos.
Em nossa civilização digital, o tempo passado no mundo virtual apaga as fronteiras do que é e do que não é Real. Isso bloqueia o acesso aos sentimentos que nos tornam humanos. Ouvir as histórias desses e-mails de bilionários e multi milionários sem se enojar, sem gritar para nossos filhos que isso é muito, muito errado, é cair na grande vala onde o Mal pode se esconder e prosperar, que é a vala da Indiferença. Isso me faz perguntar se estamos sendo treinados a perder a sensibilidade diante do horror e da desumanidade. Espero que possamos gritar, e nos inconformar com quem quer tirar a nossa capacidade de empatia.
Comece aí, na sua casa e no seu grupo de WhatsApp, a gritar contra a cultura da indiferença. Porque a violência pode vir a bater em nossas portas, através de gente que parecia do Bem.
*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”.

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