De um lado, o Congresso Nacional anuncia que vai pautar a discussão sobre o fim da escala 6x1, tema que impacta a vida real de milhões de pessoas. A escala 6x1 não é apenas um arranjo de jornada: é exaustão crônica, perda de convívio familiar, adoecimento físico e mental, abandono de estudos e uma rotina que transforma o descanso em exceção. Debater a sua superação é legítimo e urgente.
De outro lado, paradoxalmente, o mesmo Congresso aprovou mudanças recentes para o regime de trabalho dos próprios servidores, noticiadas como “escala 3x1”, além de benefícios e reestruturações internas. Em um país onde a maioria “produz seis para descansar um”, a prioridade prática parece clara: quando o tema é descanso, a pressa aparece primeiro para dentro.
A incoerência não termina aí. No Judiciário, especialmente no STF, avança um ambiente de maior tolerância à pejotização como modelo de contratação, ainda que, na vida concreta, ela muitas vezes represente a velha precarização com roupa nova: “abre um CNPJ ou não trabalha”. É a subordinação travestida de autonomia. É o risco empurrado para o indivíduo, com menos direitos, menos proteção social e mais insegurança.
E, ao mesmo tempo, convivemos com o debate permanente de “penduricalhos”, adicionais e rubricas indenizatórias que, não raras vezes, elevam remunerações acima do teto constitucional, sob a alegação de que “o salário é baixo” ou “não acompanha a inflação”. O argumento pode até ter aparência técnica, mas produz um efeito político corrosivo: pede-se empatia com o topo, enquanto se naturaliza a compressão no chão.
Essa contradição não é apenas estética. Ela é política, social e moral.
É aqui que a pergunta inevitável deveria constranger: se os salários são tão “baixos” e a iniciativa privada oferece tantas oportunidades, por que tantos insatisfeitos não migram para o mercado, tornando-se “empreendedores”, “consultores”, “PJs”? Por que a “modernização” que se impõe ao trabalhador, aquela que o desprotege, não seduz quem está no comando?
A resposta está na diferença que raramente se diz em voz alta: para a maioria, virar PJ não é liberdade; é vulnerabilidade. É a transferência do risco sem equilíbrio real de poder de negociação.
O Brasil pode e deve discutir o fim da 6x1 e formas mais humanas de organizar o trabalho. Mas precisa fazer isso com coerência republicana. Descanso e proteção não podem ser “benefícios internos” do sistema. Se são bons para os de dentro, precisam ser direito efetivo para os de fora, especialmente para quem, todos os dias, mantém o país funcionando.

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