Christian Araújo leva personagens trans a uma Belém distópica em Não Sou um Diário



Escritor e cineasta paraense mistura poesia, ficção científica e cultura pop em obra que aborda transgeneridade, crise climática e resistência

O escritor e cineasta Christian Araújo lança no dia 29 de agosto, na Livraria Travessia (Av. Alcindo Cacela, 1404 - Umarizal), em Belém (PA), Não Sou um Diário: poemas & outras mentiras — uma obra que desafia classificações ao misturar poesia, prosa ficcional e design narrativo em um volume de capa dura que simula um diário antigo. O lançamento acontece das 18h às 20h, e o autor também participa da 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, que ocorre de 29 de agosto a 6 de setembro, com exemplares promocionais disponíveis no estande Ponto do Autor. Projeto contemplado pela Lei Aldir Blanc (2025), na categoria Fomento à Criação de Projetos Culturais - Livro e Leitura.


O livro acompanha três personagens que compartilham a mesma data de nascimento, 29 de junho, e uma misteriosa tatuagem de infinito, em diferentes versões de Belém: da virada dos anos 2000 a um futuro devastado pelo colapso climático. Ana Clara Lins, uma jovem melancólica apaixonada por cultura pop, escreve em um diário que parece saber mais sobre ela do que ela mesma. Décadas depois, J.P. registra sua transição de gênero em relatórios clandestinos em uma Belém distópica, onde hormônios são contrabandeados e escrever é o único ato de resistência possível. Em 2063, José Carlos de Andrade circula por uma cidade em ruínas com humor ácido e um passado que reescreve sem pedir desculpas.


“Eu queria escrever sobre transgeneridade sem recorrer aos clichês ou aos estereótipos que costumam marcar essas narrativas”, afirma Christian Araújo. “Minha vivência como homem trans também atravessa a construção dos personagens, tornando-os mais complexos e humanos. Queria que pessoas trans se reconhecessem nessas histórias, mas também que leitores cis pudessem se identificar com elas.” O autor ressalta que a obra não interrompe o enredo para explicar o que é ser trans: “Meu objetivo não era explicar o mundo trans, mas contar histórias protagonizadas por pessoas trans — pessoas que vivem alegrias e frustrações, fazem piadas, choram, amam, envelhecem e que podem, inclusive, viajar para a Europa e beber Dom Pérignon na primeira classe.”


A estrutura do livro é propositalmente fragmentária e não linear, organizada como um mosaico literário em que poemas, prosas e projeto gráfico se entrelaçam. Cada capítulo é narrado por uma voz diferente, e o design, assinado pelo também homem trans João Oliveira, foi pensado como elemento narrativo essencial, capaz de conduzir o leitor para dentro do universo de cada personagem. “Minha intenção foi criar uma obra imersiva, experimental e híbrida”, explica Araújo. “O livro dialoga com quem lê por meio de indicações de músicas, da quebra da quarta parede nas prosas e de escolhas gráficas que ajudam a transportar para o papel o contexto social e a subjetividade de cada personagem.”


O processo de escrita, que durou cerca de um ano, foi inspirado por um poema do livro anterior do autor, Sou Feito de Pó(emas) (2024), e pela vontade de aprofundar a relação com a ficção. “Desde o início, eu sabia que queria escrever mais em prosa e aprofundar minha relação com a ficção, criando personagens e experimentando novas possibilidades para a poesia”, conta. “Foi assim que decidi construir um livro híbrido, em que poesia e prosa narrativa se entrelaçam e dependem uma da outra.” A obra também é atravessada por referências à cultura pop — de Madonna e BTS a Rita Lee e filmes de Quentin Tarantino — e por influências literárias que vão de Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa a Camila Sosa Villada e Sofia Favero.


Temas como capitalismo tardio, cultura da influência e hiperconexão digital aparecem costurados à narrativa, especialmente nos capítulos futuros, em que a megacorporação Feel Good Inc. e o implante neural MetaSoul simbolizam a mercantilização da vida e da consciência. “Ao reunir esses temas, a obra busca provocar reflexões sobre o presente e imaginar futuros possíveis, utilizando a literatura como ferramenta para discutir questões urgentes da sociedade contemporânea”, diz o autor. A crise climática, por sua vez, não é pano de fundo, mas motor da trama: a Belém de 2030 é uma zona de sobrevivência com temperatura de 40°C e umidade do ar em 25%, onde bunkers e chips neurais são a resposta de um sistema que preferiu investir em abrigos com prazo de validade a cuidar das florestas e dos rios.


A escolha do título e da capa dura, que remete a um diário, também dialoga com a pergunta central que atravessa toda a história: o que é a verdade? “O título, a contracapa e diversos elementos gráficos brincam com essa noção de verdade, realidade e legitimidade, questionando aquilo que escolhemos reconhecer como verdadeiro”, explica Araújo. “Afinal, tudo o que chamamos de ‘realidade’ foi, em algum momento, uma construção que acabou sendo validada por um grupo de pessoas.” O livro, portanto, não apenas narra, mas convida o leitor a refletir sobre sua própria posição diante do que é apresentado como real.


Na contracapa, o livro já incorpora uma brincadeira metalinguística com o próprio conceito de verdade e validação: citações fictícias assinadas por 'Jornal A Globe', 'The New Yoki Times', 'Laverny Coxxy' e 'Kaleo Mendes' compõem a arte da obra, reforçando o tema central que atravessa toda a narrativa: afinal, o que é real e o que é construção? Esses textos, criados pelo autor, funcionam como extensão do jogo literário proposto pelo livro, que desde o título e a capa provoca o leitor a questionar a própria noção de autenticidade 


Sobre o autor 


Christian Araújo é homem trans, poeta, escritor e bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Mora em Ananindeua (PA) e escreve desde a pré-adolescência, quando uma atividade em sala de aula despertou a paixão pela escrita. Publicou Sou Feito de Pó(emas) (2024) de forma independente via Lei Paulo Gustavo e integra a coletânea Transcritos (Editora Desdêmona, 2025), obra composta exclusivamente por autores trans de diferentes regiões do Brasil. No audiovisual, dirigiu os curtas Videopatia (2017) e Solitude (2017) e codirigiu o longa Os Fãs Mais Rebeldes Que a Banda (2022). É fã assumido de Madonna e BTS e acredita que a arte tem o poder de transformar o mundo, nem que seja o mundo particular de alguém.


Ficha técnica:


Obra: Não Sou um Diário: poemas & outras mentiras


Autor: Christian Araújo


ISBN: 978-65-02-16077-0


Editora: Independente


Formato: Capa dura, 104 páginas


Agenda de serviço:


Pré-venda: de 15 de julho a 15 de agosto, com frete grátis, marcador de páginas para os 50 primeiros compradores e dedicatória. Link: https://forms.gle/ThdzDmAr5D9xy3oD7


Lançamento presencial: 29 de agosto, das 18h às 20h, na Livraria Travessia (Av. Alcindo Cacela, 1404 - Umarizal, Belém-PA)


29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes: de 29 de agosto a 6 de setembro, com exemplares promocionais no estande Ponto do Autor


E-book: Disponível a partir de 16 de agosto na Amazon (https://www.amazon.com.br/dp/B0H72FH1B4)


Loja oficial: https://loja.infinitepay.io/christian-araujo-oficial (a partir de 16 de agosto)


Audiobook: Gratuito com audiodescrição, previsto para 15 de outubro no Spotify e YouTube


Redes sociais do autor: Instagram e TikTok @

chrisaraujoficial | Linktree: https://linktr.ee/christianaraujo


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