Primeiro dia de Brasil Brau destaca maturidade do setor e alerta para impacto da Reforma Tributária



Com recorde de expositores, maior evento de tecnologia cervejeira da América Latina foca em eficiência operacional e gestão financeira para enfrentar pressões fiscais e mudanças no perfil de consumo

A abertura oficial da Brasil Brau reforçou a percepção de maturidade e interiorização do mercado nacional, ao mesmo tempo em que acendeu o alerta para a urgência de eficiência operacional diante da iminência da Reforma Tributária. Durante as boas-vindas ao evento, Tatiana Zaccaro, diretora de negócios da GL events, anunciou, a ampliação da feira a partir de 2028, quando passará a se chamar Brasil Brau & Beverage, expandindo seu escopo para todo o mercado de bebidas alcoólicas e não alcoólicas.

 

“A evolução da Brasil Brau reflete um movimento natural do próprio mercado, marcado pela convergência tecnológica, geracional e comercial entre diferentes segmentos do setor de bebidas”, explica Zaccaro. Em sua 20ª edição, o evento é o grande encontro deste mercado no Brasil, que se consolidou como o segundo maior lançador de produtos cervejeiros do mundo, com 56.170 marcas ativas e um recorde de 1.954 cervejarias registradas em 794 municípios.

 

Os dados são do Anuário da Cerveja, apresentados por Eduardo Marcuso, consultor técnico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O levantamento aponta que o setor vive uma forte expansão de nichos, com destaque para o crescimento de 417% em volume de cervejas sem glúten, além de recorde nas exportações para 77 países, com valorização de 13% no preço médio do produto brasileiro.


Apesar dos indicadores de crescimento, o tom dos discursos institucionais na abertura foi de forte preocupação fiscal. Líderes do setor apontaram a iminência do Imposto Seletivo como o maior desafio do século para a cadeia produtiva, cuja carga tributária atual já consome 56% do preço final da cerveja.


"O maior gargalo da indústria no Brasil hoje não é insumo, nem distribuição, nem qualidade, mas sim o tributário. O brasileiro não aguenta mais pagar imposto. A reforma precisa ser bem feita e precisamos mostrar nossa força na mesa de negociação", afirmou Marcio Maciel, presidente do Sindicerva (Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja).


Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal), destacou a mobilização das entidades para os próximos seis meses de regulamentação. "Conseguimos colocar no texto da reforma que os pequenos produtores de cerveja, vinho e destilados terão tratamento tributário diferenciado. Agora precisamos trabalhar juntos para garantir isso", completou.


O espelho americano: gestão e "Omnibibulous"

O cenário de pressão sobre as margens e a necessidade de profissionalização estrita ganhou coro internacional no painel comandado por Bob Pease, ex-presidente e CEO da Brewers Association dos EUA. Pease revelou que o mercado americano, hoje com 9.500 marcas artesanais, enfrenta o terceiro ano consecutivo de saldo negativo, registrando 481 fechamentos contra 300 aberturas.


O especialista explicou que o comportamento pós-pandemia consolidou a geração "Omnibibulous", perfil de consumidor que pulveriza a fidelidade trocando de categoria (cerveja, coquetéis e destilados) em uma mesma noite.


"A cerveja artesanal veio para ficar, mas o crescimento linear de 40 anos acabou. Não adianta produzir cervejas incríveis sem conhecimentos profundos de negócios e sem garantir uma boa experiência ao consumidor. Quem está ganhando o jogo hoje já entendeu que estamos no mercado da hospitalidade e do controle rígido de custos por litro", cravou Pease.


CBCTalks: Estudo da Globo mapeia o novo consumidor de bebidas no Brasil

O comportamento do público final e as novas dinâmicas de mercado também ganharam espaço no painel do CBCTalks, que apresentou o estudo proprietário "A nova cultura de consumo de bebidas no Brasil". Conduzido por Karoline Dilho Alves, Head de Inteligência Setorial, e Giovana Koscak, Analista de Estratégia e Inteligência Setorial da Globo, o levantamento com 1.500 respondentes mapeou insights cruciais sobre a moderação e a busca ativa por bem-estar e wellness nas escolhas das gerações X e Y. A análise introduz dados de mercado fundamentais sobre o avanço do segmento sem álcool e o desejo do consumidor por marcas de maior valor agregado, antecipando as grandes discussões sobre a mudança de comportamento do consumidor que devem ditar o ritmo do segundo dia de evento.


Rigor técnico e segurança no mercado sem álcool

A busca por eficiência e novos nichos também dominou os debates técnicos, com foco na regulamentação de cervejas sem álcool. David Figueira, cofundador e CEO da Sim! Cerveja sem álcool, alertou que a expansão da categoria exige responsabilidade sanitária extrema por parte das indústrias, uma vez que a ausência de etanol elimina a proteção microbiológica natural da bebida.


Figueira detalhou os métodos de destilação a vácuo, osmose reversa e fermentação controlada, mas trouxe uma posição firme sobre a segurança no ponto de venda: "Os cuidados na fábrica devem ser multiplicados por dez. Não existe cerveja sem álcool sem pasteurização. Portanto, comercialmente, o mercado precisa entender que chope sem álcool representa um risco microbiológico alto".


As dores de crescimento rumo ao mainstream

A transição do modelo artesanal para o ganho de escala foi o tema central do painel mediado por Tania Miyake, engenheira de alimentos e sócia-administrativa da Cervejaria Dona. O debate reuniu Gregório Ballarotti, sócio-diretor da Cervejaria Louvada, Wadi Nussallah, presidente da Cervejaria Germânia e Silmara Andreatti, sócia-diretora da Cervejaria Stier, para discutir os gargalos de distribuição, as pressões de caixa e a necessidade de transformar a gestão familiar em corporativa diante de um varejo altamente competitivo e marcado pela guerra de preços.


Os painelistas compartilharam estratégias de resiliência, como a interiorização e descentralização fabril para driblar barreiras interestaduais, e a inovação em embalagens PET para canais de autosserviço durante crises. Ao confrontarem os dilemas entre priorizar marca, operação ou finanças, o consenso girou em torno do fluxo de caixa e do desenvolvimento de lideranças como os fatores mais críticos na escalada do negócio.


"A qualidade técnica hoje é uma obrigação e o equilíbrio de eficiência operacional exige uma busca constante pela precificação adequada. No início do negócio, uma marca não consegue se posicionar com o selo de qualidade desejado se colocar o seu preço muito abaixo das líderes de mercado. Com o tempo, o setor compreende que o melhor produto não consegue ser o mais barato", destacou Wadi Nussallah.


O evento segue sua programação até o dia 11 de junho no São Paulo Expo. Mais informações no site https://brasilbrau.com/.


Sobre a Brasil Brau 

A Brasil Brau é o maior evento profissional da indústria cervejeira da América Latina e, desde a década de 1980, se consolidou como principal ponto de encontro da cadeia produtiva do setor. Realizada a cada dois anos, reúne tecnologia, inovação, equipamentos, insumos, serviços, conteúdo técnico, networking e geração de negócios, conectando fornecedores, fabricantes, distribuidores, compradores, mestres-cervejeiros, consultores e empreendedores. 


Em 2026, o evento será realizado de 9 a 11 de junho, no São Paulo Expo, em São Paulo, com 5.000 m² de área comercializável, 160 marcas presentes e representantes de 14 países. Na última edição, em 2024, a Brasil Brau movimentou R$ 470 milhões em negócios durante sua realização e nos meses seguintes. Além da feira de negócios, o evento conta com o CBCTEC – Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia Cervejeira, e com os espaços de conteúdo CBCTRENDS e CBCTALKS. 


A Brasil Brau conta com apoio de empresas e instituições que representam diversos elos da cadeia produtiva da cerveja. A Heineken é patrocinadora Diamond e leva o oferecimento do CBCTEC; a Ruvolo, patrocinadora Platinum, é responsável pelo copo oficial de vidro do evento, entregue a todos os visitantes presentes; e a Cooperativa Agrária, nível Gold, oferecerá o happy hour da Brasil Brau. Também são patrocinadores Gold, entrando nos novos espaços de conteúdo CBCTRENDS e CBCTALKS, a Appinacle by AB Biotek, Novonesis, Yops e Fermentis, que, por sua vez, assina a ecobag do evento. São patrocinadores Silver a Hops Company, Fusion Filters, a NKA Schiaveto e a Hop France, que apoiam os espaços de conteúdo, além da Embaixada da República Tcheca. A Brasil Brau também tem apoio da Memo, Fluxos, Guia da Cerveja, Engarrafador Moderno, BAC Produções, Remembeer, Bolachas para Chopp e da plataforma de conteúdo Cervejar.com.

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