Copa do Mundo e saúde: fortes emoções durante jogos podem afetar a saúde cardiovascular?
Com a aproximação da Copa do Mundo, e a estreia do Brasil na competição (neste sábado, 13, contra o Marrocos), o país começa a entrar novamente no clima de uma de suas maiores paixões. Camisas da seleção saem do guarda-roupa, famílias se reúnem, bares se preparam e a rotina passa a girar em torno dos jogos. No entanto, em meio à festa e euforia, a medicina também acende um alerta: emoções fortes podem provocar alterações no organismo, principalmente em pessoas com fatores de risco cardiovascular.
A preocupação não é exagerada. As doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 17,9 milhões de pessoas morrem todos os anos por doenças cardiovasculares no planeta. No Brasil, dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia apontam cerca de 400 mil mortes anuais por esse grupo de doenças, o que representa uma morte a cada 90 segundos. Casos reais reforçam que o tema não fica apenas no campo da curiosidade. Em 2019, após a final da Libertadores entre Flamengo e River Plate, a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) registrou a morte de dois torcedores flamenguistas em decorrência de problemas cardiovasculares após a virada histórica do clube nos minutos finais. Mais recentemente, em agosto de 2025, um torcedor do São Paulo, de 70 anos, morreu após sofrer mal súbito no Morumbis, durante partida contra o Atlético Nacional, pela Libertadores. Segundo a CBN, ele passou mal no intervalo da partida, estava acompanhado
Para o cardiologista Dr. Jaifábio Lima, o chamado “coração de torcedor” não é apenas uma forma de falar. “O coração responde diretamente às emoções. Em momentos de nervosismo, como um gol, uma cobrança de pênalti ou os acréscimos de uma partida, quem realmente gosta e vive o futebol acaba sentindo tudo com muito mais intensidade”, explica. Essa reação acontece porque o corpo interpreta a tensão do jogo como uma situação de alerta. Com isso, hormônios e neurotransmissores são liberados na corrente sanguínea, provocando mudanças no funcionamento do organismo. “Essas substâncias podem alterar diretamente a frequência cardíaca e a pressão arterial. Então, o coração é colocado à prova, porque há aumento dos batimentos e da pressão por influência da tensão e da emoção”, destaca o médico.
Para uma pessoa saudável, esse pico emocional costuma ser passageiro. O problema é quando a emoção encontra um coração já vulnerável. Pacientes com hipertensão, arritmia cardíaca, histórico de infarto, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou tabagismo precisam ter mais atenção durante partidas de grande tensão. “Quem já tem hipertensão, arritmia cardíaca ou história de infarto precisa redobrar os cuidados com as emoções. Não significa deixar de assistir aos jogos, mas é importante evitar excesso de estresse, nervosismo e ansiedade por causa deles”, orienta o Dr. Jaifábio.
Os episódios envolvendo torcedores que passaram mal ou morreram durante partidas mostram como a emoção do futebol pode se misturar a condições de saúde já existentes. Por isso, sinais como dor no peito, falta de ar, suor frio, palpitações, tontura, sensação de desmaio, náuseas e mal-estar intenso durante ou após uma partida não devem ser ignorados. Nesses casos, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente, sem esperar o jogo terminar. Além da tensão dentro de campo, outros hábitos comuns durante os jogos também podem aumentar os riscos para o coração. Bebidas alcoólicas, comidas muito salgadas, alimentos gordurosos, energéticos, excesso de cafeína e noites mal dormidas costumam fazer parte da rotina de muitos torcedores em grandes competições, mas podem contribuir para descontrole da pressão arterial e sobrecarga cardiovascular.
“É preciso ter cuidado com aquelas comidas e bebidas que sempre acompanham as partidas, como álcool, alimentos com muito sal, gorduras e bebidas energéticas. Para quem já tem algum problema cardiovascular, esses fatores podem se somar à emoção do jogo e aumentar o risco”, alerta o especialista. A recomendação, no entanto, não é tirar a emoção do futebol. Pelo contrário: torcer faz parte da cultura brasileira, reúne famílias, movimenta afetos e cria memórias. O cuidado está em conhecer os próprios limites, manter o tratamento em dia, evitar excessos e não ignorar sinais do corpo. Pessoas com histórico cardíaco devem seguir corretamente as medicações, manter acompanhamento médico e, se necessário, conversar com o cardiologista antes de períodos de grande tensão emocional, como jogos decisivos.
Em um país onde o futebol faz parte da identidade nacional, o “coração de torcedor” vai seguir batendo mais forte a cada lance importante. A diferença, segundo o Dr. Jaifábio, está em “entender que emoção e saúde precisam caminhar juntas. Afinal, o ‘aguenta, coração’ pode até ser bordão de transmissão, mas para muita gente também deve servir como lembrete: antes de torcer pelo hexa, é preciso cuidar do próprio coração”.
SOBRE O DR. JAIFÁBIO LIMA
O Dr. Jaifábio Lima é médico formado pela Universidade de Marília (SP), com especialização em Cardiologia e Ecocardiografia pelo Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco (Procape), no Recife, considerado o maior pronto-socorro cardiológico do Norte e Nordeste. Atualmente, atua como cardiologista e ecocardiografista na Unidade Pernambucana de Atenção Especializada (UPAE) e no Hospital Eduardo Campos, em Serra Talhada (PE), além de atender na Clínica Vidda.
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