A dificuldade histórica de aprovação de projetos culturais da Zona da Mata pernambucana em editais públicos de fomento tem produzido impactos diretos no desenvolvimento, na preservação e na sustentabilidade das culturas populares do território. É a partir dessa constatação que nasce a Oficina Escrita de Si, formação gratuita voltada à escrita criativa aplicada à promoção e ao desenvolvimento de projetos culturais, que vai oferecer 15 vagas para moradores dos 19 municípios da Mata Norte de Pernambuco. A capacitação é presencial, mas as inscrições são gratuitas, e tiveram início nessa segunda-feira, dia 9 e segue até o dia 02 de março, por meio do www.instagram.com/maluncultural. Outra opção é direto no link: https://abre.ai/projetodeescrita
Dados do edital Funcultura Geral revelam um cenário persistente de desigualdade territorial. Entre 2019 e 2022, os índices de aprovação de projetos oriundos da Zona da Mata oscilaram entre 6,7% e 11%, mesmo diante do aumento expressivo no número de propostas submetidas. No resultado preliminar de 2022/2023, embora 237 projetos tenham sido aprovados no total, apenas 39 eram da Zona da Mata, o equivalente a cerca de 16,4%. Nos editais mais recentes, apesar de alguma estabilidade percentual, não houve reversão estrutural da concentração regional dos recursos.
Esse quadro afeta diretamente um território onde a cultura é sustentada, majoritariamente, pela tradição oral. Feiras, festas, praças e terreiros seguem como espaços centrais de transmissão de saberes, mantendo vivas expressões como o maracatu rural, o coco, o cavalo-marinho, o artesanato, a gastronomia e os ciclos festivos do Carnaval, do São João, do Natal e das festas religiosas. A baixa presença da região nos mecanismos de fomento limita processos de salvaguarda, enfraquece coletivos culturais e compromete a continuidade de práticas ancestrais.
Além das barreiras técnicas impostas pelos editais, pesa sobre muitos fazedores de cultura a insegurança com a escrita. O receio de não dominar a linguagem formal exigida, de “não saber colocar a ideia no papel” ou de não conseguir traduzir a experiência vivida em formato de projeto acaba afastando agentes culturais dos processos seletivos, mesmo quando possuem trajetória, reconhecimento comunitário e domínio de seus saberes.
A Oficina Escrita de Si, que tem o incentivo da Fundarpe, Secretaria de Cultura e Governo de Pernambuco, por meio dos recursos do Funcultura, surge como resposta a esse contexto. A proposta é oferecer ferramentas práticas e acessíveis para a elaboração de projetos culturais consistentes, acompanhando os participantes desde a concepção da ideia até sua estruturação técnica. A escrita é tratada como aliada da oralidade, e não como sua substituição, ampliando as possibilidades de acesso às políticas públicas de cultura.
A formação terá 40 horas de carga horária e será realizada ao longo de um mês, sempre aos sábados, em dois turnos — manhã e tarde — com cinco horas por turno, totalizando 10 horas por dia. As atividades acontecerão no Hotel Fazenda Oásis, em Paudalho, e são destinadas a pessoas com 18 anos ou mais.
Do total de vagas, 20% serão destinadas prioritariamente a pessoas em situação de vulnerabilidade social e 20% a pessoas com deficiência (PCD). As vagas remanescentes serão preenchidas pelo público em geral, respeitando critérios de diversidade territorial e atuação no campo cultural. Durante os encontros, o projeto garante materiais impressos, alimentação, transporte para participantes de outros municípios e tradução em Libras.
Entre os conteúdos abordados estão a introdução ao projeto de pesquisa, definição e formulação do problema, elaboração de objetivos, revisão de literatura, construção de referencial teórico e definição de metodologia, com foco na organização de ideias e na escrita de propostas voltadas a editais e prêmios culturais.
O projeto é idealizado pelo produtor cultural e pesquisador Lucas Gonçalves da Silva (Luccas Bárcellos), que também assume a direção geral da formação, e pela parteira, antropóloga e multiartista Helena Tenderini. A iniciativa nasce do encontro entre os dois durante uma formação em audiovisual do Kilombeduka, mediada pelo Cineclube Bamako, realizada no Sítio Malokambo, em Tracunhaém, na Zona da Mata. A experiência possibilitou trocas sobre cineclubismo, cinema negro e políticas culturais, que deram origem à proposta.
A oficina terá coordenação pedagógica de Helena Tenderini e direção executiva de Douglas Cabral. A produção é de Eduarda Phaelante, com fotografia de Milena Souz. A social media de Helen Raueny e assessoria de imprensa do jornalista Salatiel Cícero. As ações do projeto podem ser acompanhadas pelas redes @maluncultural e @eiluccash.
SERVIÇO:
O quê: Oficina de escrita criativa para projetos culturais oferece vagas para Zona da Mata de Pernambuco
Período das inscrições: 9 de fevereiro a 2 de março
Link para inscrição: http://www.instagram.com/maluncultural
https://abre.ai/projetodeescrita
Quanto: Gratuito

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