A Banda dos Corações Partidos encara o luto e a violência doméstica no EP Borrada
A dor de cotovelo e o melodrama romântico que sempre guiaram a banda dão lugar ao luto, à exaustão do corpo feminino e à violência doméstica, tratada sem metáfora.
O trabalho chega num momento em que o país vive o quarto ano seguido de recorde em feminicídios, o que faz de Borrada um disco tão urgente quanto o noticiário.
Da dor de cotovelo à ferida aberta
Nos trabalhos anteriores, A Banda dos Corações Partidos girava em torno da melancolia romântica e do ressentimento afetivo, como mostram os títulos do EP "Desamor" (2017) e do álbum "Canções de Ódio, Ressentimento e Abandono" (2022).
Em Borrada, esse universo se expande para territórios mais ásperos, em que o luto aparece como presença física e a violência doméstica deixa de ser figura de linguagem. As cinco faixas transitam entre o colapso íntimo e a violência do cotidiano, dando forma sonora a sentimentos difíceis de nomear.
Diane Veloso assume o papel de porta-voz de um corpo feminino que surge cansado, irritado, pressionado e fragmentado.
Com Alex Sant'Anna, parceiro de composição de longa data, ela constrói uma feminilidade contemporânea a partir de experiências íntimas, que se transformam em crônicas intensas e performáticas. É um disco que escolhe encarar as feridas do seu tempo sem tentar suavizá-las.
Borrada também vai na contramão do mercado: em vez de singles pensados para algoritmos, a banda aposta numa obra densa e teatral, para ser ouvida do começo ao fim, com atenção e disposição para ir além da superfície.
O som de Borrada
Produzido por Leo Airplane, tecladista da banda desde a formação original, o EP aproxima o indie brasileiro do spoken word, do teatro melodramático e de ambientações sombrias, sem abandonar o lirismo que marca a história da banda.
O rock continua sendo a base, mas os arranjos fogem do previsível e buscam novas formas de expressão e de impacto emocional, alternando momentos de fúria e calmaria que se fundem às letras de Diane.
Pianos, synths, samples e loops dividem espaço com a guitarra de Alexandre Gomes, a bateria de Josimar Santos e o baixo de Luno Torres.
O resultado é uma ruptura consciente com a estética que consagrou a banda.
Quando surgiu, A Banda dos Corações Partidos olhava para a era de ouro do rádio, para as serestas e para as velhas canções de dor de cotovelo, levando ao palco um melodrama assumido, no limite do brega e justamente por isso poético. Borrada mantém o arrebatamento teatral dessa origem, mas troca a seresta pelo peso e pela escuridão.
Um tema urgente
Logo na faixa de abertura, entre greves, feriados, Natais e desemprego, Diane encaixa um verso que funciona como denúncia: mulheres continuam sendo mortas "por amor".
O dado ganha peso diante da realidade brasileira. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o equivalente a quatro mulheres mortas por dia, com alta de 4% em relação ao ano anterior.
É o maior número desde 2015, quando o crime foi tipificado, e em 60,9% dos casos o assassino foi um parceiro íntimo da vítima. Borrada fala exatamente desse lugar: a casa, a cozinha, o casamento, o espaço doméstico onde a violência acontece longe dos olhos.
Capa Borrada Banda dos Coracoes Partidos
Ficha Técnica
Produzido por Leo Airplane
Produção Executiva: Alex Sant'Anna
Gravado no FabSounds e no DDB Estúdio por Leo Airplane
Mixado e masterizado por Leo Airplane no DDB Estúdio
Conceito e arte: Vanessa Passos
Fotos: Pritty Reis
Figurino: Iris Rocha
Todas as composições de Diane Veloso e Alex Sant'Anna, com exceção de CARMENERE composta por Diane Veloso, Alex Sant'Anna e Sidnei Cruz.
Todas as músicas gravadas e arranjadas por:
Alexandre Gomes: Guitarra
Diane Veloso: Voz
Josimar Santos: Bateria
Leo Airplane: Teclado, piano, sinth, samples e loops
Luno Torres: Baixo
Este é um projeto apoiado pelo Edital de Chamamento Público Nº 07/2023 - Ilma Fontes, proposto pelo Governo de Sergipe, através da Fundação de Cultura e Arte Aperipê – FUNCAP, com recursos da LEI COMPLEMENTAR N°195/2022 (LEI PAULO GUSTAVO).
A banda
A Banda dos Corações Partidos surgiu da experiência vivida pela vocalista Diane Veloso, também atriz, com uma oficina de teatro melodramático em 2006.
Após essa imersão no mundo da 'dor de cotovelo', A Banda dos Corações Partidos surgiu contando com as cordas elétricas de Abraão Gonzaga, hoje assumidas por Alexandre Marreta, as teclas de Leo Airplane, o choro de Aragão, as escalas em fá de Luno Torres e os rufos de Ch Malves que passou as baquetas para Josimar Seguro.
A banda já participou de eventos como Festival de Artes de São Cristóvão (2019, 2023 e 2024), Virada Cultural de São Paulo, (2017), Conexão Vivo em Recife (2009) e Projeto Periférico na Escola SESC do Rio de Janeiro (2012) além de festivais importantes em Sergipe como Zons, Rock Sertão e Projeto Verão.
A Corações levou suas dores para o audiovisual, cedendo canções para os curtas Enquanto você não chega (2024) dirigido por Vinicius Borges, A minha saudade num retrato eu guardei (2025) de Mony Mendonça e Julie Santos e a série Chão de Estrelas (2021) dirigida por Hilton Lacerda e Milena Times que foi exibida no Canal Brasil.
Na a discografia tem como último lançamento o EP Borrada, lançado em 2026, mas a trajetória fonográfica se iniciou em 2012 com o EP "Corações Partidos", dois anos depois lança o álbum homônimo, A Banda dos Corações Partidos. Em 2017 lança o EP "Desamor" seguido dos singles Offline (2019), "Faz casa" (2020) e "E se amanhecer?", trabalhos que abriram espaço para o aguardado segundo álbum, o "Canções de Ódio, Ressentimento e Abandono", além do show "Coretos, Serestas e Corações Partidos" gravado na cidade São Cristóvão, ambos lançados em 2022.
A Banda dos Coracoes Partidos - Foto de divulgacao by Pritty Reis 9
Crédito: Pritty Reis

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