Em “Furacão tornado”, Letícia Miranda mescla poesia e imagem para construir arquivo a partir de lacunas da memória familiar
O livro “Furacão Tornado” (orlando, 2026), criado pela pesquisadora, poeta e artista visual Letícia Miranda, faz da ausência e das lacunas biográficas a sua principal matéria-prima de criação. Fruto de sua pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade de Brasília (UnB), desenvolvida na linha de pesquisa Deslocamentos e Espacialidades sob orientação do artista e professor Geraldo Orthof e financiada pela CAPES, a obra investiga as linhas de acesso ao passado a partir do gesto de escavar, colar e remontar o tempo. A obra conta com a orelha assinada por Thainá Carvalho, poeta, colagista e editora da Revista Desvario, e quarta capa da pesquisadora e também poeta Erica Martinelli.
A obra disponível no site da editora orlando. O evento de lançamento está marcado para acontecer dia 22 de outubro, às 19h, no Glória Cafés Especiais e Livros, em Brasília (DF).
Dedicado a Maria e a Rosalina — avós paterna e materna da autora, falecidas antes que ela pudesse conviver com elas —, o livro se constrói como uma busca sensível por essa história incompleta. Em um país onde a preservação de memórias de famílias negras e racializadas é historicamente vulnerabilizada pelo apagamento e o silêncio, a imaginação surge não como fuga, mas como um compromisso ético e poético de sobrevivência.
Letícia sempre buscou saber como eram suas avós, do que gostavam e como agiam. Por causa dessa curiosidade afetuosa, coletou tudo que ouviu sendo dito sobre elas. “Desde a infância tento me aproximar de quem elas foram, uma vez que não tive a chance de conviver com nenhuma das duas. Dessa forma, a invenção é uma forma de inscrever nossa história no mundo. Minhas avós são minha alegria mais difícil. É a partir dessa lacuna que construo quem sou e quem desejo ser, tentando fazer reverberar as vozes já caladas de duas mulheres negras que fundaram o meu mundo".
Diante disso, Erica Martinelli ressalta a complexidade desse confronto com o passado ao dizer que o desafio é justamente o de não congelar, como a mulher de Ló, na difícil tarefa de dar vida ao passado. “A saída está na força motriz das palavras e das imagens. Diante do tempo da catástrofe e da força criadora, o leitor presencia a construção delicada e sutil de um sujeito que se forja no olho do Furacão Tornado, de onde jorram os fragmentos de uma história inventada, sonhada e vivida."
A escrita operou como uma coleta arqueológica e afetiva, guiada pela insistência em enxergar por frestas, na feitura do livro. Segundo ela, enquanto artista pode perceber a insistência em ver pela fresta, em tentar avistar o que não está dado, o que precisa ser escavado. Assim, passou a compreender a coleta (de imagens e de palavras) como um procedimento dentro do seu trabalho.
A atmosfera do projeto ganhou contornos definitivos quando a autora adquiriu, em compras pela internet em meio à pandemia, uma série anônima de fotografias em papel fotográfico (Agfa-Brovira) que retratavam um fenômeno meteorológico sobre o mar — uma tromba d’água/tornado aquático entre ilhas e praias. A partir dessas imagens apropriadas, somadas a intervenções sobre negativos, colagens analógicas e relatos fragmentados recolhidos de seus pais, a artista elaborou um livro em que a imagem e a palavra se articulam em montagem.
Na orelha da publicação, Thainá Carvalho sintetiza a dimensão visual dessa experiência ao dizer que a poeta invoca um tempo não-linear e táctil para costurar a trama de poemas que compõem as páginas do livro com essas avós e essas moradas. “Este livro é uma investigação da imagem, é olhar para trás buscando o som que se avizinha amanhã."
Cada palavra, cada imagem registrada e a forma como ambas se apresentam na página foram pensadas em um processo de busca, pesquisa, indagação, coleta e, depois, montagem. “Seja como for, o livro passou a ser um lugar inaugural, ali, em meio às páginas, uma história se abre. O livro é parte da contação dessa história, portanto, montagem. O livro também é um modo de ver", conclui.
Palavra, imagem e arquivo: a trajetória de Letícia Miranda
Nascida no Distrito Federal em 1996 e moradora do Itapoã (DF), Letícia Miranda transita continuamente entre a literatura, as artes visuais e a docência. Graduada em Letras Português pela UnB com especialização em Fotografia, é mestra e atualmente doutoranda em Artes Visuais pela UnB, onde continua a desdobrar em sua tese a experimentação da prosa e a pesquisa em torno das figuras ancestrais.
Sua estreia literária ocorreu com "A suspensão de Tomie Ohtake" (Litteralux, 2022), obra concebida a partir de estudos sobre a artista plástica nipo-brasileira iniciados em oficina com o poeta Carlito Azevedo. Em "Furacão Tornado", a autora aprofunda o diálogo intertextual da música com pensadores e criadores fundamentais de sua formação. Nomes como Walter Benjamin e seu conceito de escavação da memória, Georges Didi-Huberman, Noemi Jaffe, Audre Lorde, James Baldwin, Francis Alÿs, Ana Martins Marques, Adélia Prado, Danielle Magalhães, Simone Homem de Mello, Jards Macalé, Cícero e Milton Nascimento são destacados pela autora.
Letícia conta que “A suspensão de Tomie Ohtake” nasceu quase ao mesmo tempo que “Furacão Tornado” (2026). “Ambos os livros perseguem a morte. De um lado, o fascínio por uma artista centenária, do outro, o desejo de ver além do que foi abandonado. Porém, o primeiro livro carrega a ingenuidade de uma estreia. O segundo, está fincado no desejo”.
No circuito das artes visuais, Letícia desenvolve consistente trajetória com obras presentes no acervo do Palácio do Planalto e participação em mostras coletivas e individuais em espaços de relevância institucional, a exemplo do Centro Cultural São Paulo (CCSP), Museu Nacional da República e Casa Niemeyer. É ainda co-fundadora do Clube de Colagem de Brasília e integrante do Coletivo Zarafas e do Grupo Antiquário.
Com trajetória pedagógica que inclui atuações na Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), no Cebraspe e atualmente como professora de Língua Portuguesa na Canadian Global School, Letícia Miranda concebe o livro como um espaço de montagem e partilha coletiva: "Escrevo para guardar o que foi ignorado, o que tentaram apagar. Os itens descartados se apresentam como janelas, são pequenos espaços por onde se pode ver, mesmo que de forma embaçada. O livro é um lugar inaugural, onde uma história se abre", conclui.
Para ver é preciso tocar
o céu aberto diante de nós
bem de leve
com a ponta dos dedos
tatear em busca de algo
orgânico que povoe os dias
e aos poucos agarrar as fibras
soltar os filetes de nada que viram matéria
Para ver é preciso submergir as mãos no mundo
pisar com a sombra
a aridez do céu
Página 31, Furacão Tornado
Livro: Furacão Tornado
Autora: Letícia Miranda
Editora: editora orlando, 2026
ISBN: 978-65-82945-08-3** **
Páginas: 142
Gênero: Poesia brasileira / Artes visuais / Ensaio visual
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