Paura faz show de lançamento do álbum Primitive Chaos na Algo Hits

Crédito: @___lobinho

Pouco menos de um mês de soltar o disco 'Primitive Chaos', nono álbum de sua trajetória, o quinteto hardcore Paura faz o show oficial de lançamento neste domingo (27), dentro do Legacy Fest VI, um dos encontros mais consolidados da cena hardcore de São Paulo. O evento será na Algo Hits, na Vila Madalena.

Os ingressos em ticket.com.vc/evento/legacy-fest-5-paura-show-de-lancamento-do-novo-disco.


O Legacy Fest VI reúne, além do Paura, as bandas Trueforce, Zanga, Sufoco, Noiado, Gøssip, Devir-vespa da Orquídea e Viela Sangrenta, num line-up dedicado ao hardcore e ao punk de São Paulo. A casa abre às 15h e o evento segue até as 23h.


O que é Primitive Chaos

Primitive Chaos é um disco minimalista, pesado e construído para retirar camadas até chegar ao que o Paura considera essencial no hardcore.


Primitivo, aqui, não significa olhar para trás ou reproduzir uma época: é uma busca pelo estado bruto da música, antes do excesso de acabamento, das distrações e das mediações. Guitarras, baixo, bateria e voz voltam a cumprir uma função imediata: produzir impacto, movimento e oposição.


"Na nossa visão, é um disco primitivo, mesmo. É bem mais dinâmico, atual e no ponto certo que queríamos", resume o Paura.


O álbum está disponível em todas as plataformas de streaming (ouça aqui) e em versão CD.


Da pandemia ao caos: o momento do Paura

Primitive Chaos sucede Karmic Punishment, de 2023, disco concebido num período em que ainda era preciso compreender os efeitos de um mundo atravessado pela pandemia. Se naquele trabalho havia um esforço de organizar o que tinha acontecido, o disco novo inverte a lógica: não tenta organizar o caos antes de responder a ele. A reação vem primeiro.


Para o vocalista Fabio Prandini, o disco nasce do choque entre um mundo tecnologicamente cada vez mais sofisticado e comportamentos humanos que seguem ligados a impulsos muito mais antigos.


"Hoje entregamos nosso novo disco, 'Primitive Chaos', pro mundo. Entregamos não. Devolvemos. Porque ele veio do mundo, foi feito do mundo. É do mundo! Feito com raiva e amor", afirma.


SERVIÇO

Legacy Fest VI | Paura, show de lançamento do novo disco "Primitive Chaos"

Data: 27 de setembro de 2026, domingo


Horário: abertura às 15h, encerramento às 23h


Local: Algo Hits (Rua Patizal, 28, Vila Madalena, São Paulo/SP)


Atrações: Paura, Trueforce, Zanga, Sufoco, Noiado, Gøssip, Viela Sangrenta, Devir-vespa da Orquídea


Ingressos: R$ 30,00 em 1º lote antecipado


Venda online: ticket.com.vc/evento/legacy-fest-5-paura-show-de-lancamento-do-novo-disco



Primitive Chaos, faixa a faixa

Nas 11 faixas de Primitive Chaos, o Paura mantém o hardcore como linguagem de confronto. Não há muita mediação entre aquilo que provoca a banda e aquilo que chega à música. Questões políticas e sociais convivem com batalhas íntimas, sempre tratadas a partir de uma lógica elementar de ação e reação: identificar o conflito, expô-lo e responder.


'Primitive Chaos' abre o disco apresentando sua própria tese. A ideia de progresso é confrontada pela permanência da brutalidade humana, enquanto tecnologia e sensação de segurança aparecem como novas camadas de uma violência que continua essencialmente antiga. O caos não surge como acidente, mas como algo entranhado na experiência humana.


'The Deepest Evil' desloca o confronto para dentro. Amargura, solidão e um peso emocional que chega ao corpo compõem uma faixa sobre encarar aquilo que não pode ser combatido externamente. A saída não vem de um salvador: é preciso enfrentar o próprio demônio. É o hardcore usado também como ferramenta de autoconfrontação.


'Sarcastic Sadistic' acumula ansiedade, depressão, rumores, campanhas de difamação, dinheiro e manipulação até formar um retrato de ambientes contaminados por poder e crueldade. A composição não desenvolve uma argumentação longa: enumera sintomas, identifica o agente e parte para o embate, reproduzindo na letra a mesma economia agressiva buscada musicalmente pelo álbum.


'Master Your Hate' encontra no próprio hardcore uma resposta. A faixa fala de respeito pelo que foi construído, experiência, pertencimento e continuidade, ao mesmo tempo em que transforma a raiva em força produtiva. Entre “armas de amor” e “armas de construção em massa”, o Paura reafirma o core não apenas como som, mas como espaço coletivo capaz de converter ressentimento em ação.


'King Of Yourself' é uma ruptura com ego, vaidade e falsa autoridade. O suposto reino individual desaba diante de uma música que recusa conceder importância a quem se coloca acima dos demais. Dentro de um disco marcado pela ideia de coletivo, a figura do “rei de si mesmo” aparece quase como sua antítese.


'Who’s The Brave?' leva o confronto para a guerra. Caixões, valas coletivas, privilégios exercidos em meio à morte e ataques de drones formam algumas das imagens mais duras do álbum. O Paura contrapõe quem transforma guerra em normalidade ou capital àqueles para quem sequer existe um lugar seguro, fazendo da pergunta do título uma provocação sobre poder, violência e coragem.


'Purity In Heresy' ataca a distância entre discurso moral e prática. O sagrado perde qualquer pureza quando convive com a celebração da morte e do sofrimento alheio; a heresia, por outro lado, surge como possibilidade de coerência. Ao reivindicar uma existência sem deuses a amar nem mestres a seguir, o Paura chega a um dos pontos mais diretamente ligados à tradição contestadora do hardcore.


'Death Trap' trata da imposição de crenças e da tentativa de reproduzi-las de uma geração para outra. Filhos são pressionados a seguir aquilo em que não acreditam e transformados em traidores quando resistem. Contra esse mecanismo, a faixa reivindica uma vida possível em diferentes cores, sons e formas e coloca a recusa às verdades impostas como gesto de sobrevivência.


'Serpent’s Nest' talvez seja uma das manifestações mais físicas da ideia de “Primitive Chaos”. Morder, sangrar, manter a raiva presa, perseguir e obrigar o outro a sair do esconderijo aparecem em uma letra dominada por instinto, ruptura e sobrevivência. Não há tentativa de civilizar o conflito: a faixa remove o verniz até alcançar a reação em seu estado bruto.


'Immigrants Are Beautiful' responde à xenofobia pelo sentido de comunidade. Terra, cores, conhecimento e sabedoria existem para serem compartilhados, enquanto o imigrante aparece como parte constitutiva dessa construção coletiva. É uma das mensagens mais afirmativas do disco e recupera um princípio recorrente dentro do hardcore: comunidade se constrói pela inclusão, não pela criação de fronteiras entre quem pertence e quem deve permanecer fora.


'Their History Still Bleeds' encerra esse percurso confrontando violência masculina, abuso, cumplicidade e indignação seletiva. A decisão de não enxergar também é apresentada como escolha, enquanto vítimas deixam de ser números para recuperar história e presença. O passado continua sangrando justamente porque suas consequências permanecem no presente, e o silêncio é tratado como parte do mecanismo que permite que essa violência continue.

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