Entre o desejo e o medo de si: "O Beijo no Asfalto" expõe o custo de não se reconhecer
Em O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, o escândalo em torno de Arandir nasce de um gesto de compaixão: um beijo dado, por pedido, a um desconhecido que morre no asfalto. Mas a engrenagem que transforma esse gesto em prova de culpa não se sustenta sozinha — ela precisa de alguém disposto a alimentá-la. Na nova montagem do Grupo Oficcina Multimédia (GOM), dirigida por Ione de Medeiros, é o personagem de Aprígio, sogro de Arandir, quem carrega essa outra face da tragédia: a de um homem que também sente desejo por Arandir, não consegue reconhecê-lo em si mesmo e transforma esse conflito íntimo em perseguição.
Um sofrimento que se converte em violência
A montagem, em cartaz no Teatro I do CCBB Belo Horizonte até 5 de outubro, evita transformar Aprígio em vilão de caricatura. Ele é apresentado como um homem socialmente ajustado, engravatado, reconhecível dentro dos padrões de respeitabilidade de sua época — alguém que teme, acima de tudo, perder a aceitação que essas convenções lhe garantem. É desse medo, e não de uma maldade gratuita, que nasce sua violência contra Arandir.
Aprígio não é um monstro, é um homem que tem medo do que sente e não sabe o que fazer com esse medo a não ser jogá-lo para fora, em cima de outra pessoa. A gente quis mostrar isso com cuidado, sem transformar o preconceito dele em piada nem em espetáculo. É um sofrimento real, só que ele resolve esse sofrimento da pior forma possível: destruindo quem desperta nele aquilo que ele não suporta reconhecer, afirma Ione de Medeiros, diretora do GOM.
Reconhecer versus reprimir
Para a diretora, essa tensão entre reconhecer e reprimir um sentimento é o que dá à peça sua atualidade, ainda mais em uma época em que o debate sobre masculinidade, desejo e aceitação segue longe de resolvido. "Nelson Rodrigues não estava interessado em fazer um panfleto, ele queria mostrar o ser humano por dentro, com toda a contradição. E uma das coisas mais brasileiras que existe é essa dificuldade de admitir o que a gente sente quando isso não cabe no que a sociedade espera da gente", diz Ione.
A montagem sustenta essa complexidade sem apontar o dedo: Aprígio é, ao mesmo tempo, agente e vítima de um sistema de valores que não deixa espaço para o desejo que ele sente. É esse sistema — e não apenas um personagem — que a peça coloca em julgamento.
Sobre o Grupo Oficcina Multimédia
Fundado há quase 50 anos em Minas Gerais, o Grupo Oficcina Multimédia (GOM) é reconhecido por uma linguagem cênica em que cenário, figurino, vídeo e corpo participam ativamente da construção dramatúrgica. O Beijo no Asfalto é a 25ª produção da companhia e conclui a trilogia dedicada à dramaturgia de Nelson Rodrigues, iniciada com Boca de Ouro (2018) e seguida por Vestido de Noiva (2023), montagem que rendeu a Ione de Medeiros o Prêmio APCA de Melhor Direção. A estreia de O Beijo no Asfalto também abre o ciclo de celebração dos 50 anos do GOM.
Serviço
O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues 25ª produção do Grupo Oficcina Multimédia, direção de Ione de Medeiros Temporada: até 5 de outubro de 2026, sexta a segunda, às 20h Local: Teatro I - CCBB Belo Horizonte Endereço: Praça da Liberdade, 450 — Funcionários, Belo Horizonte/MG Ingressos: R$15 (meia) e R$30 (inteira), disponíveis no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH Classificação indicativa: 16 anos Duração: 100 minutos Acessibilidade: sessões com Intérprete de Libras (4, 13, 19 e 28/09) e com audiodescrição (12/09 e 2/10)

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