Danilo Heitor leva ficção científica e memória política para a programação paralela da Flip
O que acontece quando os crimes de uma ditadura não ficam no passado? Em Projeto Futuro (156 págs, editora País Nenhum, 2026), novo romance do escritor, professor e editor paulistano Danilo Heitor, a resposta passa por viagens no tempo, conspirações científicas e duas adolescentes determinadas a desafiar estruturas de poder. Voltado ao público jovem-adulto (YA), o livro combina ficção científica, suspense investigativo e memória política para revisitar um dos períodos mais violentos da história brasileira. A obra encontra-se em pré-venda, no site da Benfeitoria.
O autor realizará dois eventos de lançamento em julho. O primeiro acontece em São Paulo, no dia 18 de julho, às 16h, na Poison Books, em conversa com as escritoras Raquel Setz e Giu Murakami. Já no dia 24 de julho, o autor estará na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na Praça Aberta, às 21h, para uma primeira sessão de autógrafos. A segunda acontece dia 25, às 15h, no estande da com.tato, localizado na Casa Escreva, Garota!.
A trama acompanha Soraia e Leilane, duas amigas que estão concluindo o ensino médio. Tudo começa quando Soraia lê, sem querer, um e-mail inacabado do pai, o doutor Miqueias Nascimento, coordenador de Física Teórica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo. A mensagem revela a existência de um projeto secreto iniciado durante a ditadura militar que utilizava presos políticos como cobaias em experimentos de viagem no tempo. Décadas depois, a iniciativa é retomada pelo atual chefe do instituto por meio de alianças inescrupulosas e interesses que ignoram qualquer limite ético.
Decididas a impedir que novos crimes aconteçam, as duas jovens elaboram um plano arriscado. Elas substituem o isqueiro do pai por um gravador de voz, conseguem entrar no IPT sob o pretexto de realizar um trabalho escolar e encontram documentos que mencionam termos como “material humano” e “descarte político”. À medida que a investigação avança, as amigas descobrem que o experimento continua ativo e que seus responsáveis estão dispostos a tudo para manter o segredo.
O ponto culminante da narrativa acontece no Cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte de São Paulo, local historicamente associado à descoberta da vala clandestina onde foram encontrados restos mortais de desaparecidos políticos. É ali que está prevista a “reentrada” do primeiro futurizado à meia-noite. Escondidas em um jazigo abandonado, Soraia e Leilane utilizam um drone para transmitir a operação ao vivo. No entanto, uma gigantesca descarga elétrica atinge a plataforma experimental, derruba todos ao redor e transforma a noite em uma fuga desesperada.
Um thriller científico com alma juvenil
Embora apresente elementos clássicos do suspense e da ficção científica, Projeto Futuro também se dedica à construção emocional de suas personagens. Narrada em terceira pessoa e alternando o foco entre as duas protagonistas, a história intercala momentos de alta tensão, como a ida ao IPT e os acontecimentos em Perus, com situações cotidianas que aprofundam a amizade entre as jovens.
A narrativa explora o luto vivido por Soraia após a morte da mãe, a relação de afeto, proteção e orgulho que ela mantém com o pai, a curiosidade sobre o tio, um desaparecido político, e os desafios e descobertas típicos da adolescência. O resultado é uma obra que combina ação, emoção, reflexão política e amadurecimento.
Outro recurso estrutural importante são os diálogos cifrados que abrem cada capítulo. Nessas passagens, um prisioneiro conversa com duas entrevistadoras em circunstâncias inicialmente misteriosas. O significado dessas cenas só é plenamente revelado no epílogo, quando o quebra-cabeça narrativo se conecta à história dos desaparecidos políticos e à trama principal.
Ficção científica para discutir memória e ética
Influenciado por autoras como Ursula K. Le Guin e Octavia Butler, além do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, Danilo Heitor utiliza a ficção científica como ferramenta para discutir questões históricas e contemporâneas. O romance aborda o uso político da ciência, os limites éticos do progresso tecnológico e a responsabilidade das instituições diante de crimes contra a humanidade.
A obra também propõe uma pergunta central: diante de violações graves dos direitos humanos, é legítimo romper regras e convenções sociais para impedir novas injustiças ou devemos confiar nas instituições mesmo quando elas estão comprometidas com a violência?
Essa reflexão aproxima o romance de debates atuais sobre memória, reparação histórica, participação política e o papel das novas gerações na transformação da sociedade.
Uma história atravessada pela experiência pessoal do autor
Filho de militantes perseguidos pela ditadura militar, Danilo Heitor construiu a narrativa a partir de uma relação íntima com o tema. O livro presta homenagem à ativista Rosalina Santa Cruz e a seu irmão, Fernando Santa Cruz, desaparecido político durante o regime.
“O tema dos desaparecidos políticos sempre me foi muito caro. Cresci cercado por histórias de amigos e conhecidos dos meus pais que foram presos, torturados, mortos ou nunca mais voltaram”, afirma o autor.
A escolha de duas adolescentes como protagonistas também nasceu de sua experiência em sala de aula. Professor da rede pública e de cursinhos populares há mais de quinze anos, Danilo encontrou inspiração na curiosidade, no senso crítico e na disposição para questionar que observa em muitas de suas alunas.
“Sempre foram elas as mais interessadas. Para mim, fazia todo sentido que fossem protagonistas”, comenta.
O processo de criação do romance foi igualmente intenso. O escritor levou cerca de cinco meses amadurecendo a ideia até escrever a primeira versão em apenas dez dias, produzindo um capítulo por dia. Ao longo do desenvolvimento, contou com a leitura crítica de um grupo de colaboradores. “Escrever, para mim, é sempre um ato coletivo”, resume.
Além de representar um posicionamento político e artístico, Projeto Futuro marca uma conquista pessoal para o autor. Com mais de 27 mil palavras, é sua obra mais extensa até o momento e a primeira em que conseguiu desenvolver duas protagonistas de forma plenamente satisfatória.
Publicado pela editora País Nenhum, criada pelo próprio escritor em 2025 com foco em autorias do Sul Global, o livro chega ao público em edição física e reforça a trajetória de Danilo Heitor dentro da ficção especulativa brasileira. O autor foi finalista da Odisseia de Literatura Fantástica em 2024 e 2025 e do Prêmio Tato Literário em 2026.
Sobre o autor
Danilo Heitor é professor de Geografia, escritor e editor. Nascido e criado em São Paulo, formou-se em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) em 2009 e atua há mais de quinze anos na área da educação. Ao longo da carreira, trabalhou em redes públicas e privadas de ensino, editoras e projetos comunitários. É autor de outras obras de ficção científica e fundador da editora País Nenhum.
Agenda de lançamento
São Paulo (SP)
Data: 18 de julho de 2026 (sábado)
Horário: 16h
Local: Poison Books
Participação: bate-papo com Raquel Setz e Giu Murakami
Paraty (RJ) | Flip 2026
Data: 24 de julho de 2026
Local: Praça Aberta (voltada para editoras e autores independentes)
Horário: 21h
Atividade: lançamento e apresentação do livro Projeto Futuro em sessão de autógrafos
Data: 25 de julho de 2026
Local: estande da com.tato, na Casa Escreva, Garota!
Horário: 15h
Atividade: lançamento e apresentação do livro Projeto Futuro em sessão de autógrafos
Ficha técnica
Título: Projeto Futuro
Autor: Danilo Heitor
Editora: País Nenhum
Gênero: Ficção científica / Young Adult (YA)
Páginas: 156
Onde encontrar (pré-venda): https://benfeitoria.com/projeto/livroprojetofuturo
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