Bruxismo vai além do ranger dos dentes e pode indicar alterações no sono, estresse e problemas respiratórios


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Acordar com dor na mandíbula, dor de cabeça, sensação de rosto cansado ou a impressão de não ter descansado durante a noite pode ser mais do que um simples incômodo.
Esses sintomas podem estar relacionados ao bruxismo, condição caracterizada pelo apertamento ou ranger involuntário dos dentes, principalmente durante o sono. Embora seja bastante comum, o problema ainda é cercado por dúvidas e, muitas vezes, tratado apenas em sua consequência mais visível: o desgaste dentário.


O bruxismo é considerado um distúrbio multifatorial. Isso significa que não existe uma única causa para seu surgimento. Entre os fatores mais associados estão o estresse, a ansiedade, distúrbios do sono, alterações respiratórias, além de questões relacionadas ao funcionamento da articulação temporomandibular (ATM) e da musculatura da face.


O ranger dos dentes, que muitas pessoas acreditam ser a própria doença, é, na verdade, apenas uma manifestação do problema. Em diversos casos, o paciente sequer percebe que apresenta o quadro e só descobre após ser alertado por alguém que dorme ao seu lado ou ao procurar atendimento devido às dores frequentes.


O QUE PODE PROVOCAR?


Além do desgaste dos dentes, o bruxismo pode provocar dores na mandíbula, cefaleia, tensão na musculatura facial, dor cervical, limitação para abrir a boca e até alterações na qualidade do sono. Quando não tratado adequadamente, o problema pode comprometer a saúde bucal e o bem-estar do paciente.


Segundo a fisioterapeuta e osteopata Monialy Marinho, tutora do curso de Fisioterapia da Faculdade Pernambucana de Saúde, o bruxismo deve ser encarado como um sinal de que algo no organismo não está funcionando de maneira adequada.


"Muita gente acredita que o problema é o ranger dos dentes. Mas, na maioria das vezes, o ranger é apenas o sintoma. Recebo pacientes que acordam com dor na mandíbula, dor de cabeça, sensação de rosto cansado e a impressão de que passaram a noite inteira lutando contra alguma coisa. Muitos dizem que dormem tentando relaxar e acordam pior", destacou.


A especialista explica que, durante o sono, o organismo pode responder a diferentes estímulos, como tensão acumulada, alterações respiratórias ou distúrbios do próprio sono.


"Enquanto você dorme, seu corpo pode estar reagindo ao estresse, a alterações do sono, dificuldades respiratórias ou padrões de tensão acumulados ao longo do dia. Por isso, não acredito em tratar apenas a consequência. Quando fazemos isso, estamos apenas administrando crises", acrescentou.


Investigação das causas


Embora as placas oclusais sejam amplamente utilizadas para proteger os dentes contra o desgaste provocado pelo apertamento, especialistas destacam que elas não eliminam necessariamente a origem do problema.


Em alguns pacientes, especialmente aqueles que respiram predominantemente pela boca, o bruxismo pode estar relacionado a alterações na respiração durante o sono.


"Em pacientes respiradores bucais, por exemplo, o bruxismo pode estar relacionado às tentativas do próprio organismo de manter a via aérea aberta. Quando a língua perde sua posição adequada e tende a cair para trás durante o sono, a passagem de ar pode ficar mais estreita. O cérebro percebe essa dificuldade respiratória e ativa mecanismos de proteção, como microdespertares, ronco e, em alguns casos, o próprio bruxismo".


Por esse motivo, a investigação clínica costuma envolver diferentes aspectos do funcionamento do organismo, indo além da cavidade bucal. "Na minha prática clínica, avalio a ATM, a respiração, a função da língua, a mobilidade cervical e os padrões de compensação desenvolvidos pelo corpo. O problema nunca esteve apenas na mandíbula".


Tratamento multidisciplinar


O tratamento do bruxismo varia conforme a causa identificada. Dependendo do caso, pode envolver acompanhamento odontológico, fisioterapia, terapia manual, osteopatia, controle do estresse, higiene do sono, acompanhamento psicológico e, quando necessário, avaliação médica para investigar distúrbios respiratórios, como a apneia do sono.


A abordagem integrada busca reduzir os sintomas, proteger as estruturas dentárias e corrigir fatores que favorecem o surgimento do quadro. Para Monialy Marinho, a principal pergunta não deve ser como interromper o apertamento dos dentes, mas compreender sua origem.


"Através do tratamento osteopático e da terapia manual, busco identificar a causa da sobrecarga para que o corpo volte a funcionar de forma mais equilibrada. A verdadeira pergunta não é 'como parar de apertar os dentes?', mas 'por que o corpo sente necessidade de apertá-los?'".


Especialistas recomendam que pessoas que acordam frequentemente com dores na mandíbula, apresentam cefaleias recorrentes, roncam, sentem cansaço ao despertar ou percebem que passam o dia apertando os dentes procurem avaliação profissional. O diagnóstico precoce permite um tratamento mais direcionado e pode evitar complicações futuras tanto para a saúde bucal quanto para a qualidade do sono.

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