O direito de não fazer nada: por que o tédio das férias é essencial para o desenvolvimento das crianças



Por Denise Fleury Curado* - Diante dos riscos das infâncias hiperconectadas, atividades e tarefas em tempo integral, questionamos esses excessos por saber que a temporalidade da infância é outra e vai contra a corrente do tempo cronológico do mundo do trabalho, da produtividade e de uma lógica imediatista própria do nosso sistema capitalista.
Quando penso sobre o direito de não fazer nada, me soa quase como uma reivindicação para que sejam garantidos seus “direitos” de ter infância. A captura do tempo das infâncias é uma constatação, chegando ao ponto de pensarmos nas férias como o único momento da “pausa”.



Essa chamada nos faz pensar que a rotina infantil já segue a engrenagem automatizada: quando não estão na escola, estão em atividades extraescolares, com quantidades exorbitantes de tarefas escolares ou conectadas as telas, tudo, menos o ócio. Dessa constatação outra se desdobra, ao percebemos que crianças tanto quanto os adultos temem o ócio, acreditando evitar a todo custo o tédio. Estariam as crianças se tornando reféns de uma sociedade performática? Na rotina contemporânea, há quase que uma anulação desse tempo das infâncias. Nessa perspectiva, o ócio como tempo livre pode inicialmente desencadear o tédio, um efeito colateral inevitável para que as crianças possam resgatar ou se reinventar nesse espaço vazio, que chamaremos aqui de tempo livre.



Do ponto de vista emocional, o tédio traz uma sensação de apatia, às vezes acompanhada de tristeza, desinteresse ou mesmo angústia. É importante esses sentimentos, pois indicam que a criança não sabe o que fazer no seu tempo livre, já que ela desconhece este lugar de estar só, de invenção e de liberdade. No entanto, escuto o tédio como um momento necessário para a transição ao tempo vazio, livre e necessário para o despertar da criança. Para os adultos, esse momento pode ser desafiador, pois vai exigir disponibilidade que nem sempre coincide com suas agendas. Lugares abertos, locais onde a criança possa ficar livre (mesmo que sob supervisão) para explorar algo, momentos de brincar sozinha ou acompanhada são algumas das várias possibilidades. Essas mudanças nem sempre são recebidas de bom grado pelos adultos, que enxergam o tédio e as queixas das crianças como um apelo para “ocupação” ou o “preenchimento” deste vazio. 



Recorro a Jean Galard, que diz “o gesto é a poesia do ato”. Essa frase nos leva a pensar que a criança age o tempo todo. Os próprios movimentos das crianças, seu caminhar, a atividade de fazer, criar e atuar no seu meio ambiente, cercadas de objetos, pessoas e seres imaginários (dependendo da idade) são gestos de corpo inteiro. Poesia tem origem no termo grego poíesis, seu significado literal é ato de fazer, fabricação. As crianças, ao brincar, são capazes de fabricar seus próprios brinquedos. Foi o que Maria Montessori, médica e educadora italiana, descobriu ao perceber como os pequenos recorriam a objetos que se transformavam em brinquedos. Freud já dizia que a criança, ao brincar, se comporta como o poeta, pois cria, inventa mundos e nos lança a pergunta: não estaria nas crianças o segredo dos poetas?



A expressão do filósofo Jean Galard em sua obra "A beleza dos gestos" se contrapõe aos gestos da criança diante das telas, que a mantém parada, imóvel, apassivada e, portanto, sem a liberdade inerente aos gestos. Percebo que, para Galard, a beleza dos gestos está na liberdade. Diante das telas, a criança é convocada a ocupar um lugar predominantemente rígido, seguindo comando unilateral, submetida a excessos de estímulos que a capturam num tempo e espaço contrário ao seu próprio movimento e gestos de andar, fazer, agir e barulhar. Manoel de Barros, ao falar sobre o tempo das infâncias, diz: “Prezo a velocidade das tartarugas […] tenho em mim o atraso de nascença […] não sou da informática: eu sou da invencionática.” Assim, exigir que as crianças fiquem quietas, paradas, é contraproducente, pois estamos impedindo-as de se movimentarem neste mundo de coisas e pessoas, estamos impossibilitando o ócio, a liberdade e, portanto, o tempo de criar. 



O tédio faz parte das queixas infantis e, via de regra, pode ser indicativo da criança acelerada, ou do estranhamento dela diante do vazio. Pode ser um pedido de socorro por não saber o que fazer diante do nada e um alerta para a infância automatizada que estamos oferecendo a essas crianças. O desafio é os adultos sustentarem as queixas e demandas da criança e convidá-la a fazer algo neste tempo livre, algo da escolha dela, e apostar no tempo necessário que ela irá precisar, sem estímulos de telas, sem atividade naquele dia, sem “nada para fazer” nas férias e, assim, se reinventar. 


 



*Denise Fleury é psicóloga, psicanalista, pedagoga e mestre em educação, natural de Goiânia (GO). Com uma trajetória que une a clínica psicológica à paixão pela literatura, escreve crônicas, contos e livros infantis, sempre com foco na subjetividade humana e nas relações afetivas. É autora de Senhora M e outros contos (Editora Caravana, 2024) e Quem conhece os gatos do vovô? (SemiBreve, 2022) e Benjamin (SemiBreve, 2025), com Giralda & Geraldo no prelo. Sua crônica O cortejo recebeu menção honrosa no Concurso Adélia Prado (Academia Feminina Mineira de Letras, 2019). Em 2025, foi reconhecida com o Diploma de Mérito Cultural do Prêmio Buritis, na categoria Livro, Leitura e Literatura. Também realiza rodas de conversa em escolas e Centros de Atendimento Socioeducativo de Goiás.


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