Ailton Krenak inaugura plataforma do BONDE defendendo que é preciso "imaginar outros mundos"
"Como você sonha o mundo? Assim você incide no mundo." Foi com essa provocação que o líder indígena, filósofo e imortal da Academia Brasileira de Letras Ailton Krenak inaugurou, na noite desta quarta-feira (8), a plataforma de formação política e ação coletiva do BONDE, que conecta pessoas para aprender, agir coletivamente e construir mudanças em políticas públicas. Em sua primeira aula aberta, "Encarar o fim de mundos com coragem e rebeldia", Krenak convidou o público a questionar o modelo de desenvolvimento baseado na exploração da Terra e a imaginar outras formas de viver, agir e construir o futuro.Foi inspirada por essa visão que a organização lançou oficialmente o BONDE, novo nome do NOSSAS. Após 15 anos mobilizando pessoas para campanhas de incidência política e transformação social, a organização passa agora a combinar mobilização, tecnologia e formação continuada por meio de uma plataforma de cursos voltada ao fortalecimento da cidadania e do ativismo. Conheça no link: https://bonde.org.
A transmissão de lançamento reuniu aproximadamente 4 mil pessoas ao vivo, marcando a estreia da nova plataforma. O curso de Krenak é o primeiro de uma programação que reunirá ativistas, pesquisadores, artistas e lideranças para discutir democracia, clima, comunicação, direitos humanos, cidades e organização política.
Durante a aula, Krenak afirmou que a humanidade precisa abandonar a ideia de que a Terra existe apenas para ser explorada e recuperar a capacidade de construir possibilidades de futuro. "Na minha juventude, eu despertei cedo para a necessidade de imaginar outros mundos porque o meu mundo estava sendo predado", afirmou. Ele também defendeu que a transformação começa quando as pessoas compreendem seu papel no território e na comunidade. "Como você sonha o mundo? Assim você incide no mundo."
Krenak também criticou a lógica de exploração dos recursos naturais e questionou o modo como a sociedade se relaciona com o planeta. "Por que os humanos acham que podem comer a Terra? E de onde sai essa fantasia de que se a gente comer essa Terra, esse mundo, tem outro para a gente comer como se fosse um panetone?", perguntou. Para ele, a humanidade vive sob a falsa ideia de que o planeta é um recurso inesgotável e precisa rever essa compreensão para enfrentar os desafios do presente.
Outro ponto central da aula foi a defesa de uma relação mais profunda entre pessoas e território. Ao comentar a Marcha das Margaridas, Krenak destacou a potência da frase "nosso corpo, nossos territórios" e afirmou que reconhecer essa conexão representa uma mudança de consciência. "Quando alguém percebe que o seu corpo e o território que ele habita coincide, isso já é um passo no despertar", disse. Em seguida, contrapôs essa visão à lógica extrativista que transforma rios, montanhas e florestas em recursos econômicos, defendendo que esses elementos sejam reconhecidos como organismos vivos e parte da experiência humana no mundo.
Ao encerrar a primeira aula, Krenak explicou que esse despertar não está ligado a uma experiência mística, mas ao exercício de observar a realidade. "Quando eu falo de despertar, não é nenhum fenômeno místico, não. É ler, reconhecer. A hora que você ler e reconhecer a realidade, o seu entorno, você desperta em você, em algum lugar, essa capacidade de incidir no mundo", afirmou.
A aula aberta marcou o início do curso "Encarar o fim de mundos com coragem e rebeldia", estruturado em cinco encontros: Começando pelo fim, O menino no balaio, Estamos diante de uma convocatória, Sonhar e imaginar outros mundos e O despertar.
A plataforma do BONDE seguirá recebendo novos cursos mensalmente, conduzidos por nomes reconhecidos do pensamento crítico, da cultura e do ativismo brasileiro. A programação já confirmada inclui Alê Orfino, com Política das Redes (agosto); Marcos Nobre, com Raio X da Extrema Direita (setembro); Rita Von Hunty, com O Colapso do Gênero (outubro); Ynaê Santos, com Revoluções e Rebeliões Negras nas Américas (novembro); e Angela Mendes, com Lutar como Chico (dezembro). Em 2027, a programação continua com cursos de Sidarta Ribeiro (É Hora de Sonhar o Futuro), Txai Suruí (A Continuidade das Lutas), Schuma Schumaher (Histórias do Feminismo Brasileiro), Dani Silva (Como Hackear as Big Techs), Raul Santiago (Segurança Pública, um Papo Reto) e Ed René Kivitz (Disputar a Opinião Pública Evangélica).
"O NOSSAS nasceu para mostrar que pessoas organizadas conseguem mudar políticas públicas e transformar a realidade. Quinze anos depois, percebemos que os desafios também mudaram. O BONDE representa esse novo momento: além de mobilizar as pessoas para agir, queremos fortalecer uma comunidade que troca conhecimento, aprende e age coletivamente", afirma Talita Novacoski, codiretora-executiva da organização.
Para Roberto Andrés, codiretor-executivo do BONDE, a nova plataforma amplia as possibilidades de participação social diante dos desafios contemporâneos. "O BONDE acredita na mobilização como ferramenta de transformação, mas entendemos que fortalecer as pessoas também passa por compartilhar conhecimento. Queremos conectar experiências, repertórios e estratégias para que mais gente possa atuar em suas comunidades e enfrentar desafios como desigualdade, crise climática e direito à cidade", afirma.
Serviço
Reprise da aula aberta de Ailton Krenak
Disponível por tempo limitado, até 13 de julho.
Curso “Encarar o fim de mundos com coragem e rebeldia”
A formação inaugura a plataforma do BONDE. Para assinar e entrar no BONDE.
Sobre o BONDE -- O BONDE (antigo NOSSAS) é uma plataforma brasileira que conecta pessoas para aprender, agir coletivamente, construir mudanças em políticas públicas e produzir alívio concreto nas vidas de milhões de pessoas. Nascido no Rio de Janeiro e hoje presente em todo o território nacional, há 15 anos o BONDE desenvolve estratégias e projetos de mobilização social para pautar a opinião pública e incidir sobre governos e tomadores de decisão, formando redes de ativismo por diversas causas. Entre as iniciativas de maior repercussão estão Amazônia de Pé, Fim da Escala 6x1, Sem Anistia para Golpista, Ministra Negra no STF, Busão 0800, PL da Devastação, Taxa os Bilionários, Criança Não é Mãe, RJ Não é Disney e Cadê Meu Absorvente? e Tira o Pé da Minha Serra. Já reuniu mais de 5 milhões de pessoas em campanhas que contribuíram para mais de 190 mudanças em políticas públicas, e em 2026 lança um serviço por assinatura que reúne cursos exclusivos sobre ativismo e desenvolvimento do pensamento crítico. Saiba mais em bonde.org.
Sobre Ailton Krenak -- Ailton Krenak nasceu em 1953, na região do vale do rio Doce, território do povo Krenak, afetado pela atividade de extração de minérios. Ativista socioambiental e dos direitos indígenas, organizou a Aliança dos Povos da Floresta, que reúne comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia. Contribuiu também para a criação da União das Nações Indígenas (UNI) e sua luta nas décadas de 1970 e 1980 foi determinante para a conquista do “Capítulo dos índios” na Constituição de 1988, que passou a garantir, pelo menos no papel, os direitos indígenas à cultura autóctone e à terra. É coautor da proposta da Unesco que criou a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço em 2005 e é membro de seu comitê gestor. É comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República, em 2016 foi-lhe atribuído o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e, em 2023, tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira de nº 5. Krenak é autor de Ideias para adiar o fim do mundo (2019), O amanhã não está à venda (2020), A Vida Não É Útil (2020), Futuro Ancestral (2022) e coautor de outras obras.
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