Ele comenta que as mudanças foram ressaltadas no Seminário “O Enem e o Sistema de Avaliação da Educação Básica”, realizado no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e promovido por relevantes instituições dedicadas a avaliações em larga escala (ABAVE, OCDE, Cátedra Instituto Ayrton Senna IEA/USP, além do próprio INEP). “A expectativa é de que o Enem passe a valorizar mais, nas diferentes áreas, a compreensão global de um dado contexto. Não se trata mais de interpretar fragmentos de textos, voltados muitas vezes à contextualização de um conceito: espera-se que o contexto esteja em primeiro plano, exigindo mobilizar diferentes conceitos para compreendê-lo. Esse novo cenário reforça que o exame seja, na prática, uma avaliação de toda a Educação Básica, uma vez que as habilidades medidas são fruto de uma construção de longo prazo”, destaca.
Professores da Escola Lourenço Castanho avaliam que a mudança no formato tende a impactar de maneiras diferentes cada área do conhecimento, mas com um ponto em comum, a exigência de leitura mais aprofundada e capacidade de análise.
Na avaliação de Vânia Fonseca Longhi Macarrão, professora de Biologia do Ensino Médio, a área de Ciências da Natureza deve sentir de forma direta o impacto do novo formato. Ela explica que a prova deixa de premiar respostas automáticas e passa a exigir leitura cuidadosa de situações concretas. “A complexidade aumenta, mas não no cálculo, ela está na capacidade de analisar dados e conectar conceitos dentro de um problema real”, afirma. Em vez de questões isoladas, o estudante pode se deparar com um cenário único, como o uso de um dessalinizador em uma comunidade, que exige mobilizar diferentes conhecimentos ao mesmo tempo.
Segundo ela, os testlets tornam a interpretação uma etapa decisiva do processo. “A interpretação vira a chave de entrada. Sem entender o contexto, o aluno nem chega a saber qual conceito aplicar”, diz. A tendência, explica, é de um equilíbrio maior entre leitura e domínio teórico. Para se preparar, a orientação é mudar o foco do estudo. “Não basta saber fórmula, é preciso entender quando e por que usar”, ressalta. Isso inclui treinar leitura de gráficos, analisar dados e buscar referências como avaliações internacionais. “A prova trata o aluno como alguém que precisa usar ciência para resolver problemas reais”, resume.
Para Henrique Nogueira Magalhães, professor de Matemática do Ensino Médio, essa área segue exigindo cálculo. “O exame não é apenas interpretativo, mas também exige densidade teórica”, afirma. Ele destaca que o novo modelo reforça a combinação entre conteúdo e aplicação prática, aproximando a disciplina de situações cotidianas. Questões envolvendo porcentagem, probabilidade e matemática financeira tendem a ganhar ainda mais espaço, agora inseridas em contextos mais amplos.
Na prática, o desafio passa a ser ler melhor antes de calcular. “Sem uma boa leitura e filtragem das informações, o aluno fica mais suscetível a erros”, explica. Com blocos de questões interligadas, um equívoco inicial pode comprometer toda a sequência. Por isso, a recomendação é ampliar o repertório de estudo. “O estudante precisa deixar de ver as disciplinas de forma isolada e buscar conexões”, reforça. Além disso, ele sugere o contato com modelos como o PISA e o SAT, que têm caráter avaliativo e balizador da educação, papel que o Enem passa a assumir oficialmente.
Em Ciências Humanas, Leandro Martins, professor de Geografia e de Atualidades no Ensino Médio, vê uma ampliação das possibilidades de análise. Para ele, o novo formato reforça a relação entre repertório e pensamento crítico. “As duas coisas caminham juntas. Sem repertório, não há análise consistente”, afirma. Com textos mais amplos, a prova tende a explorar diferentes interfaces, da Geografia à Sociologia, a partir de um mesmo contexto.
Na prática, isso exige uma mudança de postura diante do texto. “Não é mais bater o olho no enunciado e procurar palavras-chave, mas mergulhar na leitura”, diz. O professor defende que o estudante se prepare para interpretar materiais mais densos e estabeleça conexões com a realidade. “Uma leitura mais lenta e atenta permite enfrentar várias questões sem precisar voltar ao texto”, explica. Para ele, o Enem pode, inclusive, formar leitores mais críticos. “É um convite para sair da superficialidade e construir um olhar mais articulado sobre o mundo”, finaliza.
Já na área de Linguagens, Marcella Abboud, professora de Interpretação e Produção de Texto do Ensino Médio, aponta uma mudança menos visível, mas profunda, a leitura deixa de ser fragmentada. “Diminui a leitura quantitativa e aumenta a qualitativa, com textos explorados em várias camadas”, afirma. Isso eleva o nível de exigência, já que o aluno precisa ir além da compreensão básica e avançar para inferências e análise de sentido.
Para a professora, o impacto é direto na forma como o estudante encara a prova. “Esse modelo diferencia melhor o aluno preparado do aluno sortudo”, diz. Ela destaca que textos deixam de ser apenas suporte e passam a ser centrais na resolução das questões. Como resposta, a preparação exige mudança de hábito. “É preciso desenvolver concentração e comportamento leitor”, enfatiza. Na prática, isso significa ler textos mais longos, reduzir a dispersão e sustentar o raciocínio do início ao fim. “Não dá mais para esquecer o primeiro parágrafo quando chega ao quinto”, finaliza.
Sobre Henrique Braga
Coordenador pedagógico do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, professor doutor em Filologia e Língua Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP), e autor de materiais didáticos.
Sobre Vânia Fonseca Longhi Macarrão
Professora de Biologia do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, mestranda em Educação, especialista em Metodologias Ativas, Orientação Educacional, Sexualidade Humana, Biotecnologia e Inteligência Artificial e Tecnologias Educacionais, graduada e licenciada em Ciências Biológicas e bacharel em Terapia Ocupacional.
Sobre Henrique Nogueira Magalhães
Professor de Matemática do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, engenheiro eletricista pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e técnico em Automação Industrial pelo Instituto Federal de São Paulo, licenciado e com mais de 13 anos de experiência no ensino de Matemática e Física, elaborador de exames vestibulares e autor de materiais didáticos.
Sobre Leandro Martins
Professor de Geografia e Atualidades do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, também com experiência docente nos ensinos Fundamental, Médio e Superior e atuação, desde 2009, na formação de professores.
Sobre Marcella Abboud
Professora de Interpretação e Produção de Texto do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, formada em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Pedagogia, mestra e doutora em Crítica e História Literária, livre pesquisadora em História Cultural, escritora e pesquisadora em Linguagens.
Sobre a Escola Lourenço Castanho
Oferece um projeto pedagógico inovador, que extrapola o trabalho com os conteúdos produzidos pelas grandes áreas do conhecimento, investindo também no desenvolvimento da autonomia e da crítica, na análise da dimensão social construída pelos estudantes e na vinculação com o saber. Ao longo dos anos, a Escola mantém o compromisso com seus princípios, consolidando a formação integral como a base de seu projeto pedagógico-educacional.
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