Apresentada em formato digital e físico, a mostra reúne mais de 70 imagens inéditas que revelam o frevo como experiência estética, corporal e simbólica. Todo esse acervo será dividido em partes. Cerca de 50 imagens vão ser publicadas na internet. Já outras 30, vão ganhar formato impresso.
Por meio da fotografia, o público será convidado a acompanhar passos, cores, giros e movimentos que fazem o corpo dançar em um ritmo que nasce na ponta do pé e percorre todo o corpo até a cabeça. Cada imagem traduz o frevo como uma linguagem viva, marcada por técnica, emoção e pertencimento.
A investigação visual nasce do próprio fazer artístico da Orquestra de Frevo Zezé Corrêa. A etnografia desenvolvida tem como base o trabalho contínuo do grupo de passistas que compõem a orquestra, transformando a prática da dança em instrumento de pesquisa cultural. Ensaios, apresentações e deslocamentos deixam de ser apenas momentos de preparação ou espetáculo e passam a funcionar como espaços de observação, escuta e construção de conhecimento.
A etnografia, método fundamentado na convivência direta com grupos e práticas culturais, se materializa aqui a partir do cotidiano desses jovens dançarinos. Suas vivências comunitárias, familiares e festivas orientam o olhar da pesquisa. A dança assume, assim, um papel que vai além da performance: torna-se leitura do território, forma de memória e expressão de identidade coletiva.
Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o frevo se afirma como uma das expressões mais ricas da cultura brasileira. Sua força está na capacidade de reunir música, dança, capoeira, artesanato, indumentária e poesia em uma mesma manifestação, marcada pela inventividade popular e pela criação coletiva.
A origem do frevo está ligada a uma ampla mistura de influências históricas e sociais. As bandas militares e suas rivalidades, os escravizados recém-libertos, os capoeiras, a nova classe operária e a ocupação dos espaços urbanos foram elementos decisivos para sua formação. Do repertório diverso das bandas de música, consolidaram-se três modalidades ainda vivas: o frevo de rua, o frevo de bloco e o frevo-canção.
Desde seus primeiros passos, o frevo também carrega protesto político e crítica social. Em forma de música, dança e poesia, tornou-se símbolo de resistência e afirmação cultural, dando visibilidade a corpos e identidades historicamente marginalizados. A festa, nesse contexto, sempre foi também espaço de disputa simbólica.
Na Mata Norte pernambucana, o frevo ganha contornos próprios e se manifesta como frevo rural, expressão profundamente ligada ao território canavieiro e às tradições do interior. Essa dança dialoga diretamente com o maracatu rural, o caboclinho, o cavalo-marinho, o coco de roda, a ciranda, o boi de carnaval e o fandango, formando uma rede cultural que atravessa o Carnaval, os festejos juninos e as celebrações natalinas.
Mais do que uma variação do frevo urbano, o frevo rural é uma linguagem construída na convivência entre diferentes brincadeiras populares. Ele é transmitido de geração em geração e moldado pela experiência coletiva de agricultores, cortadores de cana, músicos, passistas e brincantes. O corpo que dança carrega marcas do trabalho, da festa, da resistência e da memória.
As imagens da mostra foram captadas de forma itinerante, acompanhando diferentes contextos culturais da região.
Um dos protagonistas do ensaio é Adri Popular, bacharel em Educação Física pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em danças populares. Com trajetória ligada aos ciclos festivos da Mata Norte, ele aparece nas imagens em diálogo direto com diversas tradições, revelando como o frevo vivido no interior se constrói a partir dessa convivência cultural.
O ensaio também conta com a participação de Andresa Larisa, 23, Rafael Santana, 26, Karolayne Maria, 23, e Lucynho Vieira, 30. Jovens negros, filhos de agricultores e cortadores de cana, eles assumem papel central nas imagens, representando novas gerações que mantêm viva a tradição do frevo no interior pernambucano. Suas trajetórias revelam o frevo como espaço de pertencimento, aprendizado e afirmação identitária.
Entre as manifestações que dialogam com o ensaio estão o Maracatu Estrela de Ouro, de Aliança; o Caboclinho União Sete Flexas, de Goiana; o Bloco Rural Estrelinha, de Nazaré da Mata; e o Cavalo-Marinho Boi Pintado, de Aliança. Todas essas expressões influenciam o imaginário corporal e estético presente nas imagens.
Na versão física, as obras serão impressas com a tecnologia em papel fosco, nos seguintes tamanhos: 10x15 cm; 15x21 cm; e 20x30 cm, dimensão que amplia a leitura dos detalhes, das cores e das expressões corporais retratada em cada imagem. O tamanho das imagens permite ao público perceber com mais nitidez os gestos, a tensão do movimento e a energia que atravessa o corpo do passista, reforçando a dança como linguagem visual e sensorial.
A mostra presencial será inaugurada na segunda-feira, dia 2 de fevereiro, no Museu da Sociedade Musical 15 de Novembro, localizado no Distrito de Upatininga, em Aliança. A visitação será gratuita e acontecerá durante toda a semana pré-carnavalesca, de terça a sexta-feira. Pela manhã, o horário de atendimento é das 9h às 12h. Já no turno da tarde, vai das 14h às 17h, permanecendo em cartaz até o dia 13 de fevereiro.
Nos dias 14, 15, 16 e 17 de fevereiro, o museu funcionará em horário especial, das 9h às 12h, garantindo o acesso de moradores, turistas, visitantes e pesquisadores em um dos períodos de maior circulação cultural da região. A mostra passa a integrar o acervo da instituição e terá caráter permanente, fortalecendo ações de memória e salvaguarda do frevo rural.
Como desdobramento da pesquisa, a equipe também trabalha na produção de uma publicação digital em formato de ebook, que reunirá parte do ensaio fotográfico e textos de contextualização. O material ainda não possui previsão de lançamento e tem como objetivo ampliar o alcance do trabalho.
A iniciativa foi idealizada por Ederlan Fábio e desenvolvida de forma independente, sem incentivo público. O trabalho é realizado pela Sociedade Musical 15 de Novembro, fundada em 1888, em Lagoa Seca — hoje Distrito de Upatininga — por meio da Escola de Frevo Zezé Corrêa, dedicada à formação, à pesquisa e à preservação do frevo no interior pernambucano.
A produção é assinada pela Associação Reviva e pelo Ponto de Cultura e Memória 15 de Novembro de Upatininga. A assessoria de comunicação e imprensa é da Hub Baobá – Comunicação, Cultura e Inovação. As imagens são de Pedro Gonçalves, responsável pelo ensaio visual que estrutura a pesquisa.
Serviço:
O quê: Orquestra de Frevo Zezé Corrêa inaugura mostra pioneira dedicada à estética do frevo rural
Quando: Sábado, dia 31 de janeiro
Onde: www.instagram.com/escola.zezecorrea
Horário: 19h

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