Frevo obrigatório no repertório das principais orquestras recifenses, o clássico “Madeira que cupim não rói”, do saudoso Capiba, ganha releitura na voz de Letícia Bastos, disponível nas plataformas de streaming em 29 de janeiro. A cantora e compositora recifense propõe uma versão pop, com contornos dançantes e graves marcantes ao desabafo poético-musical alçado a hino do Madeira do Rosarinho, agremiação homenageada no carnaval do Recife em 2026.
Link:
https://open.spotify.com/artist/1cHtf2zLxSMuKNH7DmeCKK?si=Qu4ujdWCSNS1Wp3_bF210w
LINK do clipe:
https://www.youtube.com/watch?v=uoFMUqLQOHY
A sonoridade deste frevo pop, como Letícia chama, foi construída a partir do desejo de criar algo novo sem abrir mão da essência da canção original, em um gesto de respeito e continuidade. A identidade do pop nordestino se faz presente ao misturar a força rítmica do frevo com elementos do pop contemporâneo, em meio a células inspiradas no ijexá e na capoeira. Guitarras elétricas conduzem as primeiras estrofes, em frases que dialogam com o R&B, enquanto baixos graves sustentam a energia da canção. Synths eletrônicos complementam a roupagem atual.
“Este hino de Capiba carrega um significado sobre resistência cultural e tem um espaço especial dentro da minha história. O próprio título já diz tudo: o que é feito de raiz, de identidade e de povo não se desgasta com o tempo. O Bloco Carnavalesco Misto Madeira do Rosarinho é uma das agremiações mais tradicionais do carnaval pernambucano. Revisitar essa obra agora é uma forma de me conectar com esse momento histórico e de reafirmar que o carnaval não pertence ao passado: ele continua vivo, pulsante e em transformação”, defende a cantora.
Os timbres e as batidas do frevo são preservados no refrão, mantendo fidelidade à obra original. Os vocais ganham camadas e backings que evocam o canto coletivo das multidões dos blocos de rua e recriam a energia de um grito compartilhado. O resultado reitera o frevo como herança compartilhada, mantido vivo ao ser sentido, cantado e recriado de geração em geração.
O clipe, gravado nas ruas do Recife Antigo e no Rio Capibaribe, propõe um encontro simbólico entre personagens do período, como entidades culturais que se reconhecem entre si. Estão presentes referências ao frevo, ao maracatu, à La Ursa, ao Galo da Madrugada e à Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos - representada pela camisa popularizada pelo filme O Agente Secreto, do conterrâneo Kleber Mendonça Filho -, que aparecem como corpo de memória, identidade e força coletiva.
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A frase “O frevo é pop”, ostentada em um estandarte, dialoga com a fase artística de Letícia. O figurino, as cores, o brilho e os adereços partem do frevo tradicional, mas são apresentados com uma leitura contemporânea dialogando com moda, audiovisual e linguagem global. “Caminhar nos pontos turísticos do Marco Zero, nos barcos da nossa Veneza Brasileira, entre as ruas do Bom Jesus e na Praça do Arsenal, resgata minhas próprias memórias dos meus melhores carnavais vendo os blocos coloridos passarem nas ruas do centro espalhando alegria”, recorda.
A escolha de “Madeira que cupim não rói” para ser a trilha sonora do carnaval de Letícia Bastos neste ano reativa memórias afetivas da infância, quando foi introduzida à tradição pernambucana nas ruas da cidade acompanhada pela família. Ela se lembra de assistir, aos 6 anos, sobre os ombros do pai, aos desfiles dos blocos de frevo e ficar maravilhada com o colorido da multidão.
“Foi, sem dúvida, um dos primeiros frevos que aprendi a cantar por inteiro, entendendo não só a melodia, mas a mensagem que ela carrega. Uma mensagem de força, resistência e de enfrentamento às injustiças que atravessam o tempo. Para mim, é uma grande honra poder regravar essa canção e contribuir para que ela continue viva, atravessando gerações como herança cultural, assim como atravessou a minha própria história”, reflete a cantora.
Composta para questionar o resultado do concurso anual das agremiações de 1963, no qual o Madeira do Rosarinho perdeu o título para o Batutas de São José e saiu como vice-campeão, “Madeira que cupim não rói” virou símbolo de resistência, resiliência e força coletiva. Ao longo da história, a obra se consolidou como afirmação cultural e identidade viva do Recife.

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