segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A pressa é inimiga da arte? Ilustração autoral sofre com imediatismo



A urgência por resultados rápidos e conteúdos instantâneos, característica registrada da sociedade digital contemporânea, tem deixado marcas profundas também no campo das artes visuais.
Uma pesquisa realizada pela Adobe revelou que 83% dos jovens criativos se sentem pressionados a produzir com velocidade para manter relevância nas plataformas digitais, mesmo que isso comprometa a qualidade do trabalho. O dado, disponível no estudo Future of Creativity, mostra como a lógica do algoritmo tem moldado não apenas o que consumimos, mas também a maneira como novas gerações criam arte. 


Para o ilustrador infantil e educador Guilherme Bevilaqua, mais conhecido como Prof. Laqua, esse cenário representa um grande desafio na formação de artistas verdadeiramente autorais. Com mais de duas décadas de experiência na ilustração infantil, Laqua defende a importância do tempo como parte essencial do processo criativo. “A pressa faz com que muitos jovens pulem etapas importantes, como o estudo de anatomia, de composição ou mesmo a experimentação de técnicas. Querem logo postar algo bonito, que renda likes, sem entender que a construção de uma identidade artística exige amadurecimento”, afirma.


Esse impacto se reflete também nas salas de aula e cursos livres de arte, onde alunos chegam frequentemente frustrados por comparações com artistas já consolidados nas redes. Muitos sentem que estão “atrasados” em relação a colegas da mesma idade, e acabam reproduzindo estilos que julgam agradar o algoritmo, em vez de buscar a própria originalidade. A estética pasteurizada, com traços e paletas repetidas à exaustão, tornou-se sintoma desse imediatismo.


Para Laqua, é papel da educação artística combater esse ritmo ansioso com propostas que incentivem o processo, e não apenas o produto final. “A arte não combina com ansiedade. Incentivar o desenho diário, a observação do mundo real e o diálogo entre artistas de diferentes níveis pode ser muito mais potente do que qualquer tutorial acelerado da internet. O aluno precisa entender que errar, recomeçar e revisar faz parte do percurso”, destaca.


Ele também alerta para o risco do esgotamento criativo. “Quando se entra no piloto automático para alimentar feed e story, o prazer do desenho vai embora. Muitos jovens desenvolvem bloqueios por não se sentirem suficientemente bons ou produtivos. É preciso resgatar a ideia de que o tempo da arte é diferente do tempo da internet.”


O debate sobre a urgência e a velocidade na produção artística se conecta, ainda, com a saúde mental dos criadores. O próprio estudo da Adobe aponta que mais da metade dos entrevistados sente que a constante necessidade de criar conteúdo para plataformas digitais afeta negativamente sua motivação e bem-estar emocional. Dentro desse contexto, ações que promovam o “desacelerar” têm ganhado força entre artistas que buscam mais profundidade e menos performance.


Ao incentivar a escuta sensível, o respeito ao tempo do processo e a valorização do erro como etapa do aprendizado, formadores e educadores como Laqua tentam recuperar um espaço fundamental: o da criação com presença. “Estamos tão ocupados tentando alcançar o próximo viral que esquecemos de olhar para dentro. O que você realmente quer desenhar? Quem é você quando ninguém está olhando seu post?”, conclui Guilherme Bevilaqua.

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