Violência vicária: especialista alerta sobre o uso dos filhos como instrumento de controle após o fim do relacionamento


Estudos e análises clínicas indicam o deslocamento da conduta agressiva para filhos e dependentes após o término de relacionamentos interpessoais

O encerramento do vínculo afetivo ou o afastamento físico do agressor marca o surgimento de episódios de violência vicária, modalidade de agressão indireta em que o autor instrumentaliza os filhos ou entes queridos para atingir e causar sofrimento à ex-companheira. Impedido de exercer o controle direto sobre a mulher, o agressor redireciona suas condutas violentas para o núcleo familiar imediato.


A prática manifesta-se por meio de ações como o atraso ou a retenção da pensão alimentícia, o descumprimento de acordos e regimes de convivência estipulados, ameaças de pedido de guarda unilateral e práticas de alienação parental.


Segundo dados da 5ª edição da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 91,8% das agressões contra mulheres ocorrem na presença de terceiros, em grande parte filhos e familiares. Paralelamente, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou mais de 115 mil denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes nos primeiros quatro meses de 2026 no Brasil.


Consequências psicológicas no desenvolvimento infantil


A psicóloga, neuropsicóloga e educadora parental Sarah Rebeca Barreto analisa os efeitos dessas dinâmicas no neurodesenvolvimento de crianças e adolescentes submetidos a esse contexto. "Quando a criança passa a ser utilizada como instrumento de manipulação ou retaliação, há uma alteração na percepção de segurança do ambiente doméstico. Esse cenário gera um estado contínuo de estresse, que impacta as funções executivas do cérebro em formação, afetando a regulação emocional, a atenção e a aprendizagem", explica Sarah Rebeca Barreto.


Sob a perspectiva da educação parental, a conduta de sabotagem das rotinas e dos acordos judiciais interfere na estruturação do cotidiano infantil. O não cumprimento de visitas combinadas ou a recusa na prestação do suporte financeiro geram incertezas que se desdobram em manifestações como ansiedade, distúrbios do sono, regressões comportamentais e alteração de vínculo com a figura materna. "A desconstrução da figura materna e a ruptura da previsibilidade da rotina fragilizam a estabilidade emocional dos filhos. O acompanhamento profissional visa restabelecer referenciais funcionais de proteção e mitigar os efeitos do conflito no desenvolvimento cognitivo e comportamental das crianças", pontua a neuropsicóloga.


O enfrentamento da violência vicária e de outras formas de agressão psicológica e patrimonial conta com redes de atendimento especializado e órgãos de proteção aos direitos da criança e do adolescente no Brasil como a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) e Disque Direitos Humanos (Disque 100).

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