Nossa memória é confiável? Por que duas pessoas podem lembrar de forma diferente do mesmo fato
Esquecer o nome de alguém, não lembrar onde deixou as chaves ou ter aquele famoso “branco” justamente quando precisava recuperar uma informação são situações comuns. Mas a memória guarda uma característica menos óbvia: mesmo quando temos certeza de uma lembrança, ela não funciona como uma gravação exata do que aconteceu.
Lembrar é um processo ativo. Ao recuperar uma experiência, o cérebro reconstrói aquela informação a partir de diferentes elementos, o que ajuda a explicar por que duas pessoas podem vivenciar a mesma situação e, posteriormente, apresentar recordações diferentes sobre ela.
Para Alessandra Belfort, juíza federal, mestranda em Psicologia Forense e pesquisadora em emoções e tomada de decisão, compreender essa característica é importante não apenas para situações cotidianas, mas também para a maneira como interpretamos relatos e tomamos decisões.
“No meu trabalho, vejo com frequência como a memória é reconstrutiva. Pessoas sinceras podem lembrar de forma diferente o mesmo fato. Isso não é mentira, é o funcionamento normal da memória.”
A experiência no Judiciário reforça um ponto importante: segurança ao contar uma lembrança e precisão absoluta sobre o que aconteceu não são necessariamente a mesma coisa.
“Entender que lembrar é reconstruir, e não abrir um arquivo, muda a forma como avaliamos depoimentos e também a forma como confiamos nas nossas próprias lembranças”, afirma Alessandra.
É possível ajudar o cérebro a recuperar uma informação?
Se a memória não funciona como um arquivo pronto, a maneira como tentamos acessar uma informação também pode fazer diferença. Algumas estratégias simples podem favorecer a recordação no cotidiano.
1. Fechar os olhos por alguns segundos
Pode parecer estranho, mas fechar os olhos pode ajudar quando estamos tentando lembrar de uma cena, uma pessoa ou algum detalhe visual.
Ao reduzir temporariamente os estímulos do ambiente, a atenção pode ficar mais concentrada na tentativa de recuperar aquela informação.
“Quando fechamos os olhos, diminuímos a quantidade de estímulos externos competindo pela nossa atenção. Isso pode facilitar a concentração naquilo que estamos tentando recuperar, principalmente quando a lembrança envolve uma imagem ou uma situação específica”, explica Alessandra.
Isso não significa que fechar os olhos seja um “truque” capaz de recuperar qualquer lembrança. A estratégia apenas pode criar condições mais favoráveis para a recordação.
2. Tente lembrar antes de pesquisar
Deu branco no nome de uma atriz, de um lugar ou de uma informação que você sabe que conhece? Antes de abrir o Google, vale tentar recuperar a resposta por alguns segundos.
Esse esforço exercita justamente o processo de recuperação da memória.
“Quando tentamos recuperar uma informação antes de buscá-la externamente, estamos exercitando justamente o processo que queremos fortalecer. Mesmo que a resposta não venha imediatamente, esse esforço pode ser relevante para a aprendizagem e para a memória.”
A ideia não é passar vários minutos insistindo. Uma tentativa breve pode ser suficiente antes de recorrer à pesquisa.
3. Fale em voz alta o que precisa lembrar
Dizer uma informação em voz alta acrescenta uma etapa ao processo de registro daquela informação.
Em vez de apenas pensar “preciso pegar o documento”, por exemplo, dizer “vou colocar o documento na bolsa” pode criar mais uma associação entre a ação e aquilo que se pretende guardar.
“Quanto mais conexões conseguimos estabelecer com uma informação, maiores são as possibilidades de encontrá-la posteriormente. Falar, visualizar e relacionar aquilo a uma ação são maneiras diferentes de trabalhar com o mesmo conteúdo”, afirma Alessandra.
4. Relacione a informação a algo que você já conhece
Informações isoladas podem ser mais difíceis de recuperar. Criar associações funciona como uma forma de construir caminhos para chegar à lembrança.
Um nome novo pode ser relacionado a alguma característica da pessoa. Um conteúdo estudado pode ser conectado a um exemplo conhecido. Uma tarefa pode ser associada a determinada ação da rotina.
Quanto mais significativa for a associação, mais pistas podem estar disponíveis posteriormente para ajudar na recuperação.
5. Faça uma pausa quando o “branco” aparecer
Quanto mais desesperadamente tentamos lembrar de alguma coisa, mais distante a resposta pode parecer.
Nesses momentos, interromper a tentativa e mudar o foco por alguns minutos pode ser mais produtivo do que continuar insistindo sob pressão.
“A sensação de ‘está na ponta da língua’ mostra que a informação pode estar parcialmente acessível, mas ainda não conseguimos recuperá-la naquele momento. Continuar sob pressão nem sempre ajuda. Em determinadas situações, mudar de foco por alguns minutos permite retomar a tentativa com menos tensão.”
Emoções e atenção também interferem no que lembramos
A maneira como uma experiência é registrada também influencia aquilo que conseguiremos recuperar posteriormente.
Se alguém lê uma mensagem enquanto assiste à televisão, conversa com outra pessoa e acompanha notificações no celular, por exemplo, pode não ter prestado atenção suficiente para que aquela informação seja registrada de maneira consistente.
“Não podemos separar completamente memória e atenção. Se a informação não foi devidamente percebida ou processada no primeiro momento, posteriormente podemos ter a impressão de que esquecemos algo que, na realidade, nem chegou a ser adequadamente registrado”, explica Alessandra.
O estado emocional também faz parte desse processo. Situações de estresse, ansiedade, medo ou grande carga emocional podem influenciar a atenção dedicada a determinados elementos de uma experiência e, consequentemente, aquilo que será lembrado depois.
Isso ajuda a compreender por que uma lembrança não deve ser encarada simplesmente como uma reprodução fiel e imutável de um acontecimento.
Lembrar não é assistir novamente ao passado
Entender os limites da memória não significa desconfiar de tudo aquilo que lembramos. Significa reconhecer que nossas recordações são construídas a partir da forma como percebemos, registramos e posteriormente recuperamos uma experiência.
No cotidiano, essa percepção também pode ajudar a evitar certezas precipitadas, especialmente em discussões nas quais duas pessoas têm convicção de que se lembram corretamente do mesmo episódio.
“Duas pessoas podem guardar aspectos diferentes de uma mesma experiência e ambas estarem sendo sinceras sobre aquilo que recordam. Reconhecer os limites da própria memória também é uma forma de tomar decisões com mais cautela”, conclui Alessandra.

Comentários
Postar um comentário