Interpretado pelo trombonista pernambucano Marlon Barros e pela pianista Elisama Gonçalves, o trabalho amplia o repertório da música de concerto brasileira ao incorporar elementos presentes nas bandas filarmônicas e nas brincadeiras populares da região, como o frevo, a ciranda, a serenata e o cavalo-marinho. Gravado em setembro de 2025, no Estúdio Carranca, no Recife, com produção musical de Emanoel Barros, o projeto aproxima universos historicamente separados: o da tradição oral e o da escrita erudita.
Instrumentos centrais do álbum, o trombone e o piano carregam trajetórias distintas que ajudam a explicar o encontro sonoro proposto pelo projeto. O trombone pertence à família dos metais e surgiu na Europa renascentista, no século XV, como evolução do sacabuche, instrumento utilizado em cerimônias religiosas e formações cortesãs. Sua principal característica — a vara móvel que permite variações contínuas de altura sonora — conferiu ao instrumento uma expressividade singular, capaz de transitar entre potência e lirismo.
Com a expansão das bandas militares europeias e a colonização portuguesa, instrumentos de sopro chegaram ao Brasil ainda no período colonial. Ao longo do século XIX, passaram a integrar bandas civis e filarmônicas espalhadas pelo interior do país, tornando-se fundamentais na formação musical brasileira. No Nordeste, especialmente, essas bandas assumiram papel social decisivo: funcionam como escolas públicas informais de música, formando instrumentistas que mais tarde alimentariam tanto a música popular quanto a produção erudita nacional. O trombone, com sua força sonora e versatilidade, tornou-se presença marcante em dobrados, frevos e repertórios festivos.
Já o piano tem origem no início do século XVIII, quando o italiano Bartolomeo Cristofori desenvolveu o instrumento capaz de produzir sons suaves e fortes — daí o nome piano forte. Símbolo da música de concerto europeia, o piano consolidou-se como instrumento central da composição e do ensino musical no Ocidente, servindo tanto como solista quanto como base harmônica em formações camerísticas.
No Brasil, o piano ocupou papel importante na vida cultural urbana desde o período imperial, presente em salões, teatros e conservatórios, tornando-se ferramenta essencial para compositores, arranjadores e educadores musicais. Ao lado do trombone, forma uma combinação rara e desafiadora: enquanto o piano sustenta a arquitetura harmônica da obra, o trombone assume o protagonismo melódico, explorando nuances expressivas que aproximam a escrita erudita da oralidade musical brasileira.
É justamente nesse diálogo entre tradição europeia e experiência cultural nordestina que o EP Raízes: compositores da Mata Norte se constrói, propondo uma escuta em que instrumentos historicamente associados à música de concerto passam a traduzir ritmos nascidos nas ruas, nos terreiros e nas festividades populares da Zona da Mata Norte.
O repertório do álbum é estruturado em três obras que têm o trombone como instrumento solista, explorando sua potência expressiva e virtuosística dentro de uma estética musical brasileira.
O Concertino para Trombone, do compositor Auciran Roque, abre o trabalho em três movimentos — Ciranda, Serenata e Frevo. A composição traduz a riqueza rítmica desses gêneros populares por meio da escrita camerística e inclui uma cadência solista que evidencia a virtuosidade do instrumento.
Na sequência, Impressões de um Frevo, de Nilson Amarante e Nilson Lopes, apresenta uma obra solo, sem acompanhamento, que aproxima o frevo da linguagem impressionista da música contemporânea. A peça explora desafios técnicos e sonoros pouco usuais, propondo uma leitura experimental do gênero a partir da escuta e da pesquisa musical.
O álbum se encerra com o Concertino para um Trombone, de Emanoel Barros, obra dedicada a Marlon Barros e originalmente estreada em Belo Horizonte com a Banda de Música da Base Aérea Brasileira. A composição percorre a toada de cavalo-marinho, a ciranda e o frevo em escrita altamente técnica. Para o fonograma, o próprio compositor realizou a redução da versão para banda, criando uma nova adaptação para trombone e piano.
Das três obras registradas, apenas Impressões de um Frevo possuía gravação anterior. As demais foram registradas pela primeira vez pelos intérpretes, resultado de um processo iniciado em 2023, que envolveu pesquisa interpretativa, revisão das partituras junto aos compositores e apresentações preparatórias antes da gravação.
A ideia do projeto surgiu do diálogo entre o trombonista Marlon Barros, natural de Condado (PE), e a produtora cultural Larissa Michele, do distrito de Upatininga, em Aliança (PE), ambos formados no ambiente das bandas musicais da Mata Norte. Há mais de dez anos, Barros pesquisa a presença dos gêneros populares no repertório trombonístico brasileiro e buscava registrar fonograficamente essas obras como forma de valorização e difusão desse patrimônio musical.
O projeto reuniu compositores oriundos da própria região — Auciran Roque (Goiana), Emanoel Barros (Condado), Nilson Amarante e Nilson Lopes (Nazaré da Mata) — além do artista visual Adeilso Nascimento, de Tracunhaém, responsável pela identidade visual do EP.
DOCUMENTÁRIO: Dentro da agenda de novidades do projeto, também será lançado, na terça-feira, dia 3 de março, uma produção audiovisual que narra em detalhes todo o processo criativo sobre o EP. Para assistir, é preciso acessar, gratuitamente, o canal do Youtube (https://www.youtube.com/@marlonbarros/videos)
Incentivado pelo Funcultura, por meio da Fundarpe e da Secretaria de Cultura de Pernambuco, o fonograma foi realizado por uma equipe majoritariamente formada por profissionais da Zona da Mata Norte, reforçando a produção cultural descentralizada e evidenciando a contribuição da região para a música brasileira contemporânea. O EP traz Marlon Barros ao trombone e Elisama Gonçalves ao piano, interpretando obras dos compositores Auciran Roque, Emanoel Barros, Nilson Amarante e Nilson Lopes. A engenharia de áudio e mixagem de Marcos Melo e masterização de Carlinhos Borges. A identidade visual foi desenvolvida pelo desenhista e ceramista Adeilso Nascimento, enquanto o registro fotográfico e audiovisual ficou a cargo de Jefferson Guilherme. O projeto contou ainda com assistência administrativa da Cabocla Produções e assessoria de imprensa de Salatiel Cícero.
Serviço
O quê: Fonograma inédito transforma tradições populares de Pernambuco em linguagem erudita
Onde ouvir o EP: Spotify, Amazon Music, Tidal e YouTube Music,
Onde assistir o documentário : ( https://www.youtube.com/@marlonbarros/videos)

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