Finalista do Jabuti, escritor e roteirista Celso Tádhei leva ao palco em “O baterista” o mesmo dilema artístico que atravessa seu romance histórico
Aos 57 anos, o carioca Celso Tádhei vive um momento de síntese em sua trajetória. Depois de 23 anos na Rede Globo, onde foi roteirista-chefe de programas como Zorra (indicado ao Emmy Internacional) e escreveu humorísticos que marcaram gerações, ele consolida sua estreia na ficção com o romance A Casa da Ópera de Manoel Luiz, finalista do Prêmio Jabuti 2025, ao mesmo tempo em que reafirma no teatro uma de suas obsessões criativas: o artista em confronto com o próprio ofício. Essa tensão ganha forma no palco com O baterista – que, após uma estreia bem-sucedida, agora ocupa a Cia de Teatro Contemporâneo, em Botafogo, e também percorre salas do SESC Ramos, Madureira, Teresópolis, Petrópolis e Barra Mansa.
Se no romance Celso revisita o Rio de Janeiro colonial para resgatar o segundo teatro do Brasil e discutir arte como resistência, apagamento histórico e o conflito entre criação e sobrevivência, em O baterista ele desloca essa mesma questão para a contemporaneidade. A peça acompanha um músico que, recém-separado, precisa ministrar uma aula de bateria enquanto lida com o fim do relacionamento e com a sensação recorrente de ser subestimado dentro da própria banda. Entre mensagens trocadas com a ex-mulher e alunos exigentes, ele transforma o instrumento em espaço de desabafo, revelando fragilidades, vaidades e sonhos, temas que ecoam diretamente as inquietações do romance.
A conexão entre livro e peça não é acidental. “O dilema do artista entre criação e sobrevivência me acompanha há décadas”, afirma o autor. No romance, ele coloca em cena Manoel Luiz e sua trupe de artistas mestiços no século XVIII, debatendo-se entre talento, poder e dinheiro. No palco, concentra esse embate em um único corpo, um baterista que questiona seu lugar e seu valor. Em ambos os casos, a arte surge não apenas como profissão, mas como afirmação de identidade.
A música, aliás, é fio condutor constante em sua dramaturgia. Desde Bula da Cumbuca – A História Acelerada do Samba Cadenciado até Animal – Choro sem Chororô, passando por espetáculos que dialogam diretamente com o universo musical brasileiro, Celso construiu uma escrita cênica profundamente rítmica. Em O baterista, essa vocação atinge sua forma mais literal: a percussão deixa de ser mero acompanhamento e se torna discurso. A bateria, instrumento frequentemente visto como suporte, ganha protagonismo, assim como o artista que a toca.
Formado em Artes Cênicas pela UNIRIO, Celso iniciou a carreira no teatro antes de migrar para a televisão. Escreve praticamente todos os dias há décadas e atribui à disciplina e aos “quilômetros de treino” a segurança para transitar entre linguagens. No processo de criação de A Casa da Ópera de Manoel Luiz, encontrou liberdade ao assumir uma estrutura fragmentada e metalinguística, inserindo-se como personagem assombrado pelo passado. Já em O baterista, essa mesma consciência do fazer artístico aparece na relação direta com o público, em tom ora confessional, ora irônico.
Carioca de Laranjeiras, profundamente ligado à cidade, Celso costuma dizer que a arte é uma forma de resistência que não necessariamente “luta contra”, mas afirma a singularidade do indivíduo. Essa ideia atravessa tanto o romance finalista do Jabuti quanto a peça. Seja no teatro colonial do século XVIII, seja numa garagem transformada em sala de aula, o que está em jogo é sempre o mesmo: como sobreviver da própria arte sem perder a dignidade da criação?
Entre literatura e palco, Celso Tádhei consolida uma obra que dialoga com humor, memória e música. Em O baterista, ele reafirma que o ritmo, seja das palavras ou da percussão, continua sendo sua maneira mais potente de pensar o Brasil e o lugar do artista dentro dele.
Ficha técnica
O baterista – monólogo musical com Antônio Fragoso
Texto: Celso Tádhei | Atuação: Antônio Fragoso | Direção: Diego Molina | Diretor assistente: Alexandre Regis | Cenografia: Diego Molina e Patrícia Muniz | Direção musical: Marcio Lomiranda e Pedro Coelho | Iluminação: Anderson Ratto | Figurino: Patrícia Muniz | Programação visual: Daniel de Jesus | Fotografia: Caique Cunha | Filmagem: Bernardo Palmeiro Direção de produção: Botão Cultural | Produção: Antônio Fragoso e Celso Tádhei | Realização: Levante42
Serviço - Cia de Teatro Contemporâneo
Datas: 3, 10, 17, 24 e 31 de julho de 2026 (quintas-feiras)
Horário: 20h
Local: Cia de Teatro Contemporâneo – Rua Conde de Irajá, 254, Botafogo, Rio de Janeiro
Informações: (21) 974496483
Ingressos: https://bit.ly/4vBeAQO
Valor: R$ 90,00
Serviço – Apresentações no SESC
O baterista também será apresentado em unidades do SESC no Rio de Janeiro. Confira as próximas datas:
● SESC Ramos – Sexta-feira, 19 de junho, às 19h
● SESC Madureira – Sexta-feira, 26 de junho, às 19h
● SESC Teresópolis – Sábado, 11 de julho, às 19h30
● SESC Petrópolis – Sábado, 15 de agosto, às 19h
● SESC Barra Mansa – Quinta-feira, 10 de setembro, às 19h
Programação sujeita à lotação do espaço. Informações sobre ingressos e valores diretamente nas unidades do SESC.
Comentários
Postar um comentário