O macaquinho Punch nasceu em Julho de 2025. A sua mãe é uma macaquinha jovem e inexperiente, que teve um trabalho de parto longo e doloroso e, depois do mesmo, apresentou alguns sinais de depressão pós parto, ou de exaustão física, porque não conseguiu se conectar com o filhote e acabou por abandoná-lo. Se Punch vivesse em ambiente natural, teria morrido de inanição. Essa é a mãe Natureza. Como ele estava num ambiente monitorado, foi retirado do ambiente de seu bando e recolhido à enfermaria, onde foi amamentado e cuidado com uma dupla de funcionários, chamados nos vídeos como “seus pais”. Punch cresceu e se vinculou a essas pessoas, e tem alguns vídeos fofos do macaquinho escalando seus tutores e aprendendo a se comunicar e relacionar com esses humanos. Foi nessa fase que ganhou seu bicho de pelúcia, sobre o que também cabe um parêntesis:
Na década de 50, pesquisadores fizeram um experimento com macacos que hoje não seria possível, por conta de sua crueldade: macacos recém nascidos eram separados de sua mães e recebiam dois tipos de mães substitutas – uma macaca de pelúcia e outra de arame. A pegadinha é que só a “mãe” de arame tinha comida. Os bebês optavam por ficar com fome, mas agasalhados e amparados pelo bicho de pelúcia. Foi esse experimento que replicaram com o macaquinho japonês, que ganhou uma mãe de pelúcia, a mamadeira e dois tutores. Ficou no melhor dos mundos. Certo? Não necessariamente.
Quando Punch ficou maior e fora de risco, começou a tarefa de adaptá-lo a seu ecossistema e ordem social. Aquele macaquinho que era acolhido por seus tutores e que se lançava em seus colos para ganhar cafuné, achou que o mundo iria tratá-lo da mesma forma. Dentro do grupo, virou um mala. Insistia para brincarem com ele, ou acolhê-lo como seus tutores humanos faziam. O resultado foi uma coleção de sopapos e empurrões que o faziam correr para sua mãe de pelúcia. Essa cena foi filmada e viralizou na internet, com o clamor de se impedir os maus tratos do bichinho.
Os veterinários e biólogos do zoológico esclareceram que monitoravam a situação e que tudo aquilo era um processo duro de aprendizado e, como todo processo de aprendizado, incluía tentativa e erro. E algumas escoriações.
Punch começou a aprender como se relacionar com o grupo, como esperar a sua vez, e acabou adotado por bichos adultos que começaram a ensinar o básico das relações sociais daquela turma. O bicho foi “promovido” e agraciado com o “grooming” atividade que consiste em um macaquinho catar os piolhos dos outros, o que é o fino da interação social. A internet bombando de alegria, mas o caminho ainda é longo. Punch está aprendendo a ser parte do grupo.
O que eu não consigo deixar de comentar, é o paralelo entre a situação de Punch e nossos cuidados com nossos filhotes humanos. Além da questão dos cuidados com mãe e filho nos primeiros anos de vida, pois mães inexperientes e com pouca rede de apoio podem gerar situações de difícil controle no futuro, penso no reverso dessa medalha, que são os filhotes superprotegidos que são impedidos de sofrer qualquer tipo de frustração, gerando adultos (?) inviáveis para a vida adulta. A reação da internet ilustra bem isso, com o povo clamando pela proteção do macaquinho naquele ambiente hostil. Se isso ocorresse, ele perderia a última chance de viver com seres da sua espécie.
Hoje me chegam relatos de mães que vão com os filhos em entrevista de empregos. De empresas que estão bloqueando vagas para a tal geração Z. A lição do macaquinho Punch é universal: amparo nas fases iniciais de seu desenvolvimento, e suor e lágrimas para aprender a ser gente grande. E sem debates ideológicos e de superproteção. “Proteção desprotege” dizia uma música antiga.
Vivemos num mundo de intolerância à frustração e falta de limites para nossos filhotes. Punch levou vários sopapos para entender limites e as formas adequadas de inserção social. Nesse ponto, já dá para devolver a macaca de pelúcia para a enfermaria. Ele não precisa mais dela. Resta saber se vamos aprender a tirar esse brinquedo de nossos filhotes.
*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiano e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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