segunda-feira, 9 de março de 2026

Mulheres ampliam liderança em áreas tradicionalmente masculinas



Ao longo de anos, muitos setores de trabalho foram marcados pela predominância masculina, especialmente nos espaços de liderança. Nos últimos anos, no entanto, esse cenário vem passando por transformações, ainda que muito gradualmente.
No ramo da construção civil, entre 2007 e 2018 as mulheres responderam por um aumento de 120% na sua presença no setor, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O avanço não corresponde apenas à contratação de mão de obra, mas representa, também, à presença das mulheres em posições de liderança, onde atuam como engenheiras, gestoras de obras e supervisoras. Essa ampliação da liderança feminina traz impacto positivo direto para os resultados das obras e para a cultura organizacional das empresas.


Na Pernambuco Construtora, 41% do quadro de liderança é composto por mulheres, seja em áreas administrativas como Mariana Wanderley que é a Diretora executiva comercial e marketing, Emmanuelle Wanderley como Diretora executiva financeira ou no canteiro de obras, como a Maria da Conceição Cabral que é supervisora do setor de Engenharia e Serviços há quase quatro décadas. Elas detalham que o desafio de conciliar a carreira com os preconceitos associados às mulheres não impediram-nas de permanecer em busca do próprio espaço. “Para mim, o maior desafio era conciliar meu trabalho, que sempre foi obras fora das cidades, com a criação dos meus filhos. Houveram momentos de culpa, cansaço e questionamentos, ainda assim, entendi que ter conhecimento, liderança com a equipe, determinação e gostar do que faz é o diferencial mais importante para um profissional”, explica Maria da Conceição. 


O avanço do setor não se reflete como caso isolado da construtora. A FW Máquinas, distribuidora também do setor de construção, possui um quadro de 53 colaboradores, dos quais 14 são mulheres, 2 em cargos de liderança, incluindo Juliana Werner, diretora financeira da empresa há 31 anos. Ela explica que atuar nesse cenário exige persistência, pois em muitos ambientes organizacionais, os comportamentos preconceituosos permanecem. “Muitas vezes fui ignorada e desrespeitada com assuntos machistas em reuniões de trabalho. Já vi clientes rindo quando souberam que eu iria analisar o crédito financeiro deles. O fato de eu ser sócia, deixava a situação um pouco mais confortável, mas não menos constrangedora”, detalha. 


Para além da construção civil, outro setor majoritariamente dominado por homens durante a história é o esporte. A presença feminina sempre foi mais visível como atleta do que nos espaços de decisão, já que os clubes e federações não tinham mulheres em cargos de liderança. Este cenário, entretanto, começou a ser dissolvido, ainda que de forma gradual. Um levantamento feito pelo Comitê Olímpico do Brasil em 2022 apontou que as mulheres ocuparam cerca de 41% dos cargos nas comissões do ciclo olímpico. Além disso, a ONU Mulheres também reconheceu, em 2021, que os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 foram os mais igualitários até o momento, com 48% de participação feminina. 



No Recife, o Caxangá Golf & Country Club é o primeiro e único clube de golfe do país a ser presidido por duas mulheres, Carolina Sultanum como presidente e Gabriela Borba como vice-presidente. Ao longo dos 97 anos do clube, nunca houve uma mulher na presidência, até a gestão anterior, que convidou Carolina para assumir a diretoria social e a partir disso, se deu um novo momento para a história do Caxangá. Atualmente, o clube conta não apenas com a presidente e vice, mas também com outras duas mulheres na diretoria. 


A participação de mulheres nas decisões da instituição contribui para que outras mulheres se sintam mais à vontade em ocupar esses espaços. Gabriela reconhece que trabalhar no meio esportivo é um desafio que deve ser enfrentado com serenidade, através do trabalho e da consistência profissional. “Em alguns ambientes, especialmente aqueles que historicamente foram mais masculinos, como o meio esportivo, às vezes a mulher precisa demonstrar sua capacidade um pouco mais. [...] mas com o tempo, o respeito se consolida muito mais pelo que você entrega e pela forma como conduz suas responsabilidades”, ressalta. 


Essa diversidade exige um esforço contínuo das empresas e instituições em se manterem atentas às mudanças da sociedade. Mesmo com dados positivos, o machismo estrutural ligado à presença de mulheres em cargos de liderança ainda persiste. A barreira de preconceito que foi construída durante anos é um desafio ao qual as organizações precisam estar dispostas a quebrar.  


Nenhum comentário:

Postar um comentário