sexta-feira, 6 de março de 2026

Enfrentando a ansiedade da separação com doçura: uma entrevista com a especialista em infância Denise Fleury



Por Ana Ferrari* - A separação entre mãe e filho é um dos primeiros grandes ritos de passagem da infância, carregado de uma angústia que é, ao mesmo tempo, universal e profundamente íntima.
É nesse território delicado que a psicóloga e psicanalista goianiense Denise Fleury transita em seu novo livro, “Benjamin” (selo SemiBreve, 48 págs.). Com um título que brinca com o som de "beija a mim" e ilustrações de Yasmin Hassegawa, a obra utiliza a metáfora de dois elefantes para transformar o medo da distância em poesia sonora e onomatopeias. 


Além de psicóloga, Denise é pedagoga, mestre em educação e psicanalista. Ela une à sua trajetória clínica a paixão pela literatura, por meio da escrita de crônicas, contos e livros infantis, sempre com foco na subjetividade humana e em suas relações. É autora de “Senhora M e outros contos” (Editora Caravana, 2024) e “Quem conhece os gatos do vovô?” (Semibreve, 2022), com “Giralda & Geraldo” no prelo. Sua crônica “O cortejo” foi premiada com menção honrosa pela Academia Feminina Mineira de Letras no Concurso Adélia Prado (2019). Em 2025, seu trabalho foi reconhecido com o Diploma de Mérito Cultural do Prêmio Buritis, na categoria Livro, Leitura e Literatura. 


Confira abaixo a entrevista com a autora


Denise, o título "Benjamin" guarda um trocadilho carinhoso com "beija a mim". Como surgiu essa sacada e de que forma ela resume a essência do livro?


Surgiu falando o nome em voz alta e, de repente (por acaso) eu própria me escutei dizendo Beija- min e me pareceu perfeito já que se tratava de dois elefantes, sendo a mãe e o seu bebê, se comunicando pelo toque das trombas. O nome traz essa sonoridade e uma espécie de encontro pelo som das palavras e pelo toque, como a mãe quando embala seu bebê no colo.


Sua trajetória une a psicologia, a psicanálise e a pedagogia. Como a sua "escuta clínica" no consultório moldou a narrativa de “Benjamin”? Foi a partir dela que veio a inspiração para o livro?


O tema do livro foi inspirado na minha escuta clínica acerca da infância e da angústia, a separação mãe e bebê gera angústia em ambos. Porém, a inspiração também surgiu da experiência como professora da educação infantil, ao perceber a dificuldade e os desafios enfrentados pelos pais e educadores e especialmente pelas crianças no momento da separação. Este tema pode ser tratado pela palavra e pelo simbólico de forma lúdica, por meio da brincadeira como sons e onomatopeias que o livro proporciona. Penso o livro como recurso linguageiro e simbólico que pode ser lido por pai, mãe, educadores e como opção de trabalho e projeto nas escolas, sobretudo nos anos iniciais da educação infantil e adaptação escolar. 


No livro, você utiliza a metáfora de dois elefantes e o entrelaçamento de suas trombas. Por que a escolha desse animal especificamente para representar o vínculo entre mãe e filho?


O elefante tem a tromba, que representa o cordão umbilical, ou seja, o afeto se dando pelo entrelaçamento das trombas. A escrita deste livro foi motivada pela necessidade de levar as crianças a vivenciarem e a expressarem esse sentimento de ansiedade, assim construi a obra de forma que durante a leitura, a criança se coloque no lugar do elefante e possa identificar sentimentos que ainda não nomeia.


Você comenta como a obra é uma ferramenta importante para os pequenos leitores nomearem sentimentos e os compreenderem melhor. Porém, o livro também foi pensado como um suporte para o adulto que sofre com o "corte" do cordão umbilical simbólico?


De uma certa maneira posso dizer que sim, pois a experiência da maternidade, logo após o nascimento traz esse corte real do corpo e para a mãe tem um certo luto desse vazio que fica e um certo trabalho a ser feito de conexão com esse ser; uma conexão de um outro lugar e de outra forma que começa com as palavras, melhor, com o som das palavras. Acredito que o colo que embala também nutre esse pequeno ser com palavras.


Então, você sempre busca explorar aspectos como a subjetividade humana e a relação das pessoas com o mundo em suas obras, certo? Poderia contar um pouco mais sobre isso?


Acho que isso se deve porque gosto de observar e escutar. Desde criança gostava de novelas e me via envolvida com os personagens, quando a novela acabava sentia muita tristeza em despedir-me dos personagens e de suas histórias. Acredito que escrever histórias passa um pouco por aí. Penso que a ficção é um modo de conviver, de dar nome, contornos, saídas e formas a personagens da vida real, a tragédias e a dureza do que é viver e também a delicadeza e complexidade da vida. É assim com todas as histórias que escrevo, me envolvo até a despedida final e até surgir a próxima novela (rsrs)…


Há muitas onomatopeias e uma linguagem sintética. Por que você escolheu utilizar essa forma de escrita?


Meu estilo é sintético, gosto poucas palavras, mas busco as palavras certas, aquelas que têm o poder de dizer mais com menos. Gosto de contos, os textos curtos têm o poder de síntese, mas podem promover reflexões profundas. Desde meu primeiro trabalho optei por essa forma. Para “Benjamin” adotei a onomatopeia porque elas são curtas, mas potentes para dar a mensagem que eu gostaria de passar. 


E quais são suas principais inspirações na hora de escrever? Quem te inspira e quais destas inspirações influenciaram diretamente “Benjamin”?


Considero as principais influências na minha formação os contos clássicos dos irmãos Grimm, A arca de Noé, de Vinícius de Moraes, O sítio do Picapau Amarelo, de Montero Lobato, as fábulas de La Fontaine. Destacaria como leituras principais depois de adulta as obras de Cecília Meireles, Manoel de Barros e Mia Couto. A influência para a escrita de Benjamin, a escolha estética e narrativa curta com onomatopeias e palavras em desuso como “cocoruto” segue uma tendência mais poética. A inspiração para escrever livro ilustrado veio dos livros ilustrados como Beatrix Potter; Roger Melo, Odilon Moraes, Tino Freitas, Alexandre Rampazzo dentre tantos outros. Contudo, gostaria de destacar o trabalho quase manual e artesanal da procura pela palavra e, nesse campo, diria que a inspiração poética e sonora veio da influência de Cecilia Meireles, Cora Coralina, Guimarães Rosa, Manoel Barros e da Ruth Rocha como “o Trem do seu Nicolau”. Também destacaria a influência do livro “O tigre que veio para o chá da tarde” de Judith Kerr; além de Bartolomeu Campos de Queirós.



Sobre o processo de escrita, quanto tempo demorou para elaborar “Benjamin”? E como foi a parceria com Yasmin Hassegawa, a ilustradora do livro, neste processo?


O processo de escrita e reescrita foi lento, a partir de muita observação e também de pesquisa sobre o tema. Foram quatro anos até chegar ao formato que considerei ideal. Criar um livro ilustrado pode ser um desafio e tanto, pois além de pensar nas palavras, você deve pensar na sua materialidade: o passar de páginas, como a imagem pode substituir algum texto mais longo, uma descrição da cena, por exemplo… Porém, o trabalho minuncioso de Yasmin Hassegawa, que acabou se tornando uma co-autora do livro, pois houve uma conjugação entre texto e imagem. Essa foi a fase mais demorada e exigente do processo, que também acabou resultando na economia de palavras no livro, deixando-o mais potente e poético. Fora isso, houve a consultoria e leitura crítica da Andrea Kluge, a Bia Menezes do design gráfico, para ficar bem redondinho. 


E a bagagem adquirida com a escrita dos seus livros anteriores te auxiliou de alguma forma nesses quatro anos? “Benjamin” em específico representa algo em especial para você?


A escrita é sempre um aprendizado, são camadas que vão se sobrepondo a cada obra. Nesse sentido, “Quem conhece os gatos do vovô?”, meu primeiro livro infantil, funcionou como bússola para o aprimoramento do meu processo de escrita, para encontrar o meu estilo, as minhas metáforas, meus encantamentos pelo universo da infância. Todo livro é uma espécie de filho gestado com carinho até alcançar sua melhor forma. “Benjamin” é especial porque coloco nele minha própria maternidade, é transformador poder olhar para a obra pronta e perceber-me no lugar da mãe que recebe, acolhe e guia os passos dos seus filhos.


Você menciona que colocou sua própria experiência de maternidade no livro. Como foi o processo de "se enxergar" na mãe elefante que acolhe e guia os filhos?


A chegada do meu primeiro filho foi um divisor de águas. Embora amasse ser professora na educação primária e todo o prestígio que essa função me conferia, não me senti preparada para deixá-lo, vivi o encantamento e a exaustão da maternidade integral. Me vi em um estado de quase loucura e percebi que eu necessitava de atividades diferentes daquela realidade. Essa experiência me levou à Psicologia, uma 'saída' para não me afogar na dedicação exclusiva. Conciliei os estudos com a criação dos meus filhos, sempre cercada por livros. Hoje, escrevo para expressar essas dores e desafios, mas também para pautar a 'política do cuidado'. 


Você também realiza um trabalho em Centros de Atendimento Socioeducativo. Como a literatura pode atuar como ferramenta de transformação em contextos de vulnerabilidade ou privação de liberdade?


Fui convidada em 2025 a participar de rodas de conversas com adolescentes em privação de liberdade a partir da história “ Quem conhece os gatos do vovô?”. Foi um trabalho muito bom de fazer, teve a participação dos profissionais, pedagogos e toda a equipe que trabalha junto a esses jovens. Foi uma experiência incrível pois vi sorrisos, esperança e envolvimentos desses adolescentes, foi como enxergar uma luz no fim de túnel, pois a arte, a música e a literatura tem esse poder, atravessa a todos e suspende o tempo e o espaço por breves momentos, o suficiente para esquecermos onde estamos, o que fazemos e podermos quem sabe sermos outros. Lembro de um jovem que compôs e cantou uma música no final de um desses encontros. A música toca o coração e com a literatura não poderia ser diferente.



*Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

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