Autista e negra, escritora potiguar Jaciara Maria estreia na ficção científica com um olhar sobre futuro, humanidade e coletividade

 


Em Daqui até o sol, autora imagina uma Terra à beira do colapso e acompanha o encontro entre um professor de História de Bangu e um extraterrestre 

Em 2038, a crise climática chegou a um ponto em que 55 ºC é uma temperatura considerada normal no Rio de Janeiro. Apesar dos avanços tecnológicos, a humanidade continua sem encontrar uma forma de conviver em harmonia. É nesse cenário que se passa Daqui até o sol (Editora Mondru, 520 págs.), romance de estreia da autora potiguar Jaciara Maria, que combina ficção científica, romance e uma reflexão sobre os limites do individualismo diante de uma crise que atinge toda a sociedade.


No livro, Ravi, um jovem professor de História de Bangu, tenta seguir a vida em meio ao calor extremo e à expectativa pela chegada dos extraterrestres. Habitantes do planeta Thiliria, os najooren vêm à Terra com a missão de ajudar a evitar o colapso iminente do planeta. Entre eles está Garo Sun, supervisor-chefe da equipe responsável pela chamada Transição do Planeta Terra.


Ao chegar, Garo escolhe Ravi para auxiliá-lo na difícil tarefa de compreender a humanidade. A relação entre os dois passa a ser chamada na internet de "Alien Pair", mas o vínculo que se estabelece entre o professor e o extraterrestre ultrapassa a função inicialmente atribuída a eles. A descoberta do amor se mistura à tentativa de compreender uma espécie marcada por contradições, conflitos e, ao mesmo tempo, pela capacidade de criar vínculos e agir coletivamente.


Para Jaciara, a relação entre Ravi e Garo é também uma forma de discutir o que significa ser humano. Entre os temas centrais do romance estão a descoberta da humanidade pelo olhar do outro, o amor como força criadora e destruidora e a busca pela coletividade.


"Tudo isso fala sobre o hoje. Porque estamos cada vez mais individualistas, porque prendemos os nossos olhares nas nossas telas e esquecemos que somos uma comunidade que tem o poder de mudar as coisas se nos unirmos ativamente", explica a autora. Em determinado momento da narrativa, Garo afirma que o senso de coletividade é a única coisa capaz de salvar os humanos. "Cada vez menos eu vejo isto na minha realidade", afirma Jaciara.


Ao escrever Daqui até o sol, a autora também procura construir uma possibilidade diferente para o futuro. "Sei que talvez eu não possa mudar o mundo com palavras, mas ponho toda a esperança de que ainda tenhamos salvação na minha escrita."


Uma ficção científica voltada para a esperança

Aos 33 anos, Jaciara Maria estreia na literatura com uma longa trajetória como leitora e escritora. Entre suas principais influências estão Jane Austen, J.R.R. Tolkien e Conceição Evaristo. Na ficção científica, destaca a escritora Ursula K. Le Guin.


"Leio Tolkien desde que eu era adolescente, então este estilo de escrita mais profundamente detalhado já é algo derivado de tais leituras; com Conceição Evaristo, eu me debrucei profundamente na escrita de outra escritora negra e aprendi o poder de retratar a história de pessoas como nós na literatura."


Embora a crise climática e o colapso da sociedade estejam no centro da narrativa, Jaciara não parte de uma visão necessariamente pessimista do futuro. A escolha pela ficção científica também está relacionada ao desejo de imaginar outras possibilidades.


"Eu acho que é preciso olhar para o futuro com bons olhos novamente", reflete. "Nem sempre é fácil, vivemos num mundo em que as guerras e a crise climática parecem devastar nosso planeta por completo."


Para a autora, escrever sobre futuros possíveis também pode ser uma forma de recuperar a esperança. "A ficção científica precisa ser a esperança que queremos ver no mundo. Por isso escrevo."


Ravi e Garo: duas formas de enxergar a humanidade

Dividido em quatro atos, Daqui até o sol é narrado em primeira pessoa, com capítulos alternados entre Ravi e Garo. A mudança de perspectiva também acompanha uma diferença de linguagem entre os personagens.


"Nos capítulos do Ravi, minha escrita é mais despojada e mais alinhada à geração dele, que nasceu em 2008. Nos capítulos de Garo, minha escrita é mais formal e rígida", explica Jaciara.


Apesar do contexto de crise, Ravi é apresentado como um personagem marcado pelo humor e pelo carisma. Jovem, negro, periférico e LGBTQ+, ele enfrenta dificuldades relacionadas à sua trajetória e às crises de saúde mental, mas mantém uma relação esperançosa com a humanidade, ainda que essa esperança seja colocada à prova ao longo da narrativa.


Garo, por sua vez, reproduz a formalidade característica dos najooren. Inicialmente, o extraterrestre tenta compreender e manter distância da espontaneidade de Ravi. A convivência entre os dois, porém, modifica sua percepção sobre a existência e sobre a própria humanidade. Música, arte e a beleza encontrada na Terra passam a fazer parte dessa transformação.


A noção de família e comunidade também ocupa um lugar central na história. Dona Regina e Raíla, respectivamente mãe e irmã de Ravi, o melhor amigo André e personagens najooren, como a guerreira Rina Dagon, ampliam a narrativa para além do casal central. As relações entre eles ajudam a construir a ideia de que a sobrevivência depende dos vínculos estabelecidos entre diferentes pessoas e grupos.


"Pessoalmente, eu espero que este livro transmita a mensagem de que é impossível vencer qualquer coisa sozinho", afirma Jaciara.


Para a autora, a colaboração é necessária diante dos problemas que atravessam a sociedade. "É preciso uma vila inteira para criar uma criança, e é preciso uma sociedade inteira para agir em nome da mudança que queremos. Cada um de nós depende um do outro."


A perspectiva de Jaciara sobre a ficção científica também é atravessada por sua experiência como pessoa autista e negra. Para a autora, essa vivência influencia a maneira como observa o gênero e as possibilidades de imaginar outros futuros. Daqui até o sol constrói sua visão de futuro: um mundo em crise, mas ainda aberto à possibilidade de transformação por meio do afeto, da comunidade e da capacidade de agir em conjunto.


Sobre a autora

Jaciara Maria é o pseudônimo de Jaciara de Macedo Silva, 33 anos, romancista e contista de ficção científica nascida, criada e residente na Zona Norte de Natal, Rio Grande do Norte. O nome artístico também tem relação com sua história familiar. "Minha mãe é Maria e meu pai tinha Maria no nome também, então sempre estive destinada a ter esse nome", conta.


Estudou Jornalismo até 2015, mas não concluiu o curso. A escrita, segundo a autora, tornou-se uma ferramenta importante em sua trajetória. "Escrever foi uma das formas de escalar com as minhas próprias mãos para fora do fundo do poço", revela.


Daqui até o sol levou dois anos para ser escrito. O processo incluiu reestruturações e mudanças na narrativa, inclusive a incorporação de um personagem que, segundo a autora, passou a ser considerado essencial para a história.


O processo foi lento. Tive que voltar e reestruturar alguns capítulos algumas vezes e, em determinado momento, tive que fazer uma grande alteração em todos os capítulos para incluir um personagem que não existia antes na história e que, de repente, eu cismei que ele era essencial", relembra.


Sobre o significado do romance, Jaciara resume: "Daqui até o Sol representa toda a minha crença no futuro da humanidade encapsulada num livro de quinhentas e poucas páginas."


Atualmente, Jaciara desenvolve um novo projeto, uma história sobre dois irmãos separados durante a infância que se veem em lados opostos numa guerra entre a Terra e Marte.


Serviço

Livro: Daqui até o sol

Autora: Jaciara Maria

Editora: Mondru

Páginas: 520

ISBN: 978-65-6042-217-9

Gênero: Ficção científica / Romance

Ano: 2025


Trecho do livro

"Foi naquele momento que entendi a fascinação do Universo Conhecido com os Humanos. Eles eram desajeitados em seu modo de governar e agir entre si, mas tinham uma vontade de viver que superava qualquer avanço tecnológico-civilizacional. Era esse o motivo pelo qual povos tão antigos ainda sobreviviam — a negativa completa em face do Mensageiro do Fim, qualquer que fosse seu rosto.


Eles gostavam de se imaginar como heróis. Como vítimas vitoriosas de vilões espaciais opressores para desviar seus olhos do que acontecia em seus próprios territórios, onde mocinho talvez não fosse a palavra certa para descrevê-los. Obviamente, havia maldade na Terra. Assim como também transbordava bondade; não é possível almejar um lugar ao sol sem atravessar suas sombras. A dualidade e convergência de ideias eram para sempre presentes, e provavelmente essenciais para que alguém pudesse se considerar Humano."


Adquira Daqui até o sol: https://mondru.com/produto/daqui-ate-o-sol/?srsltid=AU7gw4XxV28zt4UbnY6l199i5vFdd4qVy6ES4sVdqhFL0gSe-4uhx0yM 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog