Seu coração está pronto para correr? Cardiologista alerta para cuidados antes de entrar na onda das corridas de rua

 


Pernambuco quase dobrou o número de provas em um ano; hipertensos e pessoas com alterações cardiovasculares também podem correr, mas avaliação e acompanhamento fazem diferença

Tênis no pé, relógio no pulso e uma meta pela frente: completar os primeiros cinco quilômetros. A corrida de rua ganhou as avenidas, parques e redes sociais e se transformou em um dos fenômenos esportivos dos últimos anos. No Brasil, o número de praticantes passou de cerca de 9 milhões, em 2022, para 14,6 milhões em 2026, de acordo com os dados divulgados no TS Summit, promovido pelo Ticket Sports. O crescimento também aparece no calendário: foram 5.241 provas oficiais realizadas no país em 2025, contra 2.827 no ano anterior – alta de 85%.


Em Pernambuco, o avanço foi ainda maior. O levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO) aponta que o estado passou de 123 provas em 2024 para 238 em 2025, um crescimento de 93%. Com cada vez mais corredores iniciantes nas ruas, uma pergunta também precisa acompanhar essa tendência: quando as pernas estão dispostas a correr, o coração está preparado para o esforço?


Para o Dr. Jaifábio Lima, médico cardiologista, quem está saindo do sedentarismo deve ter atenção principalmente antes de começar a aumentar distância e intensidade. “Para uma pessoa sedentária que decidiu iniciar uma atividade física, o ideal é primeiro realizar uma avaliação médica. Também podemos solicitar exames laboratoriais para conhecer melhor as condições daquele paciente e identificar possíveis fatores de risco antes de ele começar a correr”, orienta.


Isso não significa tratar a corrida como uma atividade perigosa. Pelo contrário. A prática regular de exercícios é uma das principais aliadas da saúde cardiovascular. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que pessoas insuficientemente ativas apresentam risco de morte entre 20% e 30% maior em comparação com aquelas que se exercitam regularmente. Para adultos, a recomendação é acumular entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa.


O cuidado necessário está em respeitar as condições de cada organismo. Para quem já recebeu diagnóstico de hipertensão, por exemplo, correr não é necessariamente uma atividade proibida. “A pessoa com hipertensão arterial pode correr, desde que esteja fazendo o uso correto da medicação, com a pressão controlada e mantendo acompanhamento médico. Cada paciente precisa ser avaliado de acordo com sua condição”, explica o Dr. Jaifábio.


A medicina esportiva também tem avançado nessa direção. Uma declaração científica publicada em 2025 pela American Heart Association (AHA) e pelo American College of Cardiology (ACC) reforçou que a existência de determinadas alterações cardiovasculares não significa, automaticamente, que a pessoa precise abandonar atividades esportivas. Em vários casos, a prática é possível após avaliação individual do risco e acompanhamento adequado.


Para pacientes com arritmias, histórico de infarto ou outras doenças cardiovasculares, no entanto, a investigação precisa ser mais detalhada. “Nessas situações, além da avaliação clínica, podem ser necessários exames cardiológicos mais específicos para estimarmos o risco e entendermos qual tipo e intensidade de exercício aquele paciente pode realizar com maior segurança”, ressalta o cardiologista.


Embora eventos cardíacos graves durante corridas sejam considerados raros, eles podem acontecer. Um estudo publicado em 2025 no periódico científico JAMA analisou mais de 29 milhões de participantes de maratonas e meias-maratonas realizadas nos Estados Unidos entre 2010 e 2023. Foram identificadas 176 paradas cardíacas durante as provas, uma incidência de aproximadamente 0,54 ocorrência para cada 100 mil participantes. Entre os casos analisados em que foi possível determinar a causa, a doença arterial coronariana apareceu como o principal diagnóstico associado.


Por isso, tão importante quanto preparar musculatura e fôlego é saber interpretar os sinais do próprio corpo. Nem tudo deve ser atribuído à falta de condicionamento físico. “Um cansaço muito acima do esperado para aquele esforço, palpitações ou desconforto no peito durante a atividade precisam ser investigados. A pessoa não deve simplesmente pensar que aquilo está acontecendo porque começou a correr agora ou porque está fora de forma”, alerta o especialista.


Outro hábito que ganhou espaço junto com o universo fitness merece atenção: o consumo de energéticos e produtos estimulantes antes dos treinos. A American Heart Association alerta que os efeitos cardiovasculares da cafeína variam entre indivíduos e que doses elevadas, principalmente em produtos altamente concentrados, já foram associadas a alterações do ritmo cardíaco. Para o Dr. Jaifábio, moderação é fundamental. “Essas bebidas, quando consumidas em excesso ou por pessoas mais sensíveis às substâncias estimulantes, podem aumentar a frequência cardíaca e favorecer arritmias. É importante não imaginar que, porque determinado produto é utilizado para melhorar disposição ou desempenho, ele é automaticamente seguro para todas as pessoas”, destaca.


E o relógio, ajuda?


Se antes o corredor precisava parar e colocar os dedos no pulso para ter alguma ideia da frequência cardíaca, atualmente relógios inteligentes acompanham batimentos, ritmo, distância e outros indicadores ao longo de todo o treino. Para o cardiologista, a tecnologia pode contribuir, desde que não seja transformada em diagnóstico. “Os smartwatches podem ser grandes aliados. Eles permitem observar o comportamento da frequência cardíaca durante o exercício e acompanhar algumas alterações. Mas, se houver dúvida sobre aquilo que apareceu no relógio, principalmente em relação à frequência ou ao ritmo do coração, essa informação deve ser levada ao cardiologista para uma avaliação adequada”, orienta.


Com milhões de novos corredores e um calendário cada vez maior de provas, o desafio não é desestimular quem encontrou na corrida uma forma de cuidar da saúde, mas tornar essa escolha mais segura. Para o Dr. Jaifábio, a atenção especial deve ser dada justamente a quem passou muito tempo sedentário ou possui fatores de risco conhecidos. “Para quem está começando, minha principal orientação é fazer uma avaliação médica. Dependendo do perfil, podemos realizar exames laboratoriais, eletrocardiograma e ecocardiograma, que permite avaliar a estrutura do coração. A partir daí, conseguimos conhecer melhor aquele paciente e proporcionar uma prática esportiva mais tranquila. Correr é uma excelente atividade, mas começar de forma consciente é sempre o melhor caminho”, finaliza.


SOBRE O DR. JAIFÁBIO LIMA


O Dr. Jaifábio Lima é médico formado pela Universidade de Marília (SP), com especialização em Cardiologia e Ecocardiografia pelo Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco (Procape), no Recife, considerado o maior pronto-socorro cardiológico do Norte e Nordeste.


Atualmente, atua como cardiologista e ecocardiografista na Unidade Pernambucana de Atenção Especializada (UPAE) e no Hospital Eduardo Campos, em Serra Talhada (PE), além de atender na Clínica Vidda.

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