OVM aborda TOC e dores silenciosas no single duplo 'Não Toque'




Arte: Fer Fiorini (@adios_fernandito)

A OVM, banda de Jundiaí que integra o cast da Casalago Records, lança nas plataformas de streaming o single duplo Não Toque, formado pela faixa-título e por “Ponto Cego”. 

As duas composições avançam a apresentação de Exúvios, segundo álbum da carreira, construído em torno de transtornos, saúde mental e seus efeitos sobre o funcionamento da sociedade.

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“Não Toque” aborda o transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC, por meio de uma estrutura que trabalha deliberadamente com o contraste. A letra pesada e amarga é conduzida por uma sonoridade que a OVM define como indie-dance-rock, com uma pulsação voltada à pista e influência do big beat britânico, mas desenvolvida sem a base eletrônica associada ao estilo.


A harmonia vocal, as guitarras e a seção rítmica criam uma ambientação viva e dançante, distante da tensão descrita nas palavras. A música segue uma lógica recorrente na obra da OVM, na qual o arranjo não ilustra diretamente o tema da letra. Ele cria uma segunda camada e conduz o ouvinte por uma experiência sonora aparentemente mais leve que o conteúdo apresentado.


Ao divulgar as primeiras etapas de Exúvios, a banda definiu esse procedimento de forma direta: “A ideia é provocar o desejo de dançar através dos arranjos e grooves, enquanto expomos as incoerências e pensamentos intrusivos que afetam a sociedade”, afirmou a OVM em material publicado pelo Blog n’ Roll.


“Ponto Cego” segue por uma direção diferente. A faixa é uma balada melancólica, construída com guitarras e ritmos próximos do britpop e do indie rock. A letra aborda pessoas que convivem com depressão profunda e ideação suicida, mas não conseguem revelar às pessoas próximas os pensamentos e a dor acumulada.


O crescimento melódico do trecho final contrasta com esse recolhimento. Em vez de uma resolução explícita, a música chega a um coro de vozes que funciona como uma camada sobre os sentimentos que permanecem escondidos. O título parte justamente dessa distância entre o que acontece internamente e aquilo que familiares, amigos e pessoas próximas conseguem perceber.


O passado no presente

“Ponto Cego” começou a ser composta antes da própria formação da banda. A primeira versão se chamava “Entrega” e apresentava outro tema, outra melodia e uma métrica ligada a uma fase inicial do processo de composição.


A música foi retomada anos depois e reconstruída a partir da experiência acumulada pelos integrantes. O sintetizador e os efeitos sonoros presentes na gravação original foram retirados, enquanto guitarras, baixo e outros elementos de corda assumiram o centro do arranjo. A mudança aproxima a faixa da linguagem desenvolvida pela OVM nos trabalhos mais recentes.


O coro que encerra “Ponto Cego” foi gravado em estúdio por pessoas ligadas à trajetória da banda. Participaram familiares, amigos e integrantes da Viúva Fantasma, outra formação do catálogo da Casalago Records.


Exúvios avança em capítulos

Não Toque sucede dois lançamentos apresentados pela OVM em 2026. O single duplo Depois? reuniu a faixa-título, sobre ansiedade, e “As Pedras”, que discute dependência, entorpecentes e os mecanismos de fuga associados ao sofrimento psíquico.


Na sequência, o EP Senóides trouxe “Vestida” e “Senoide 1 / Senoide 2”. A segunda composição foi dividida em movimentos que representam momentos de crise e estabilização relacionados à esquizofrenia, com uma estrutura iniciada em compasso 7/8. O lançamento também retomou acontecimentos narrados no primeiro álbum da banda, A Mosca.


Essas faixas integram um repertório desenvolvido ao longo de aproximadamente cinco anos. Para preservar a continuidade sonora de Exúvios, a banda decidiu registrar os instrumentos com o mesmo equipamento e durante as mesmas sessões. As etapas anteriores tiveram produção, mixagem e masterização de Gui Godoy, produtor e fundador da Casalago Records.


A OVM

Formada em Jundiaí em 2014, a OVM é composta atualmente por Tiago Mancin, responsável pela voz, guitarra e violão; Danilo Nascimento, na guitarra, violão e backing vocals; e Edmilson “Eddie” de Souza, no baixo.


A banda começou em reuniões destinadas a versões de Blur, Nirvana e Franz Ferdinand. As primeiras composições autorais alteraram o rumo do projeto e levaram ao álbum de estreia A Mosca, lançado em dezembro de 2018. O disco acompanhava um inseto durante a observação dos conflitos internos humanos e já utilizava melodias vibrantes para conduzir letras soturnas.


Em 2019, o single “Presente” abordou a rotina de medicamentos de uma pessoa com depressão. No ano seguinte, “Ad Nauseam” tratou do isolamento e da alienação produzidos pelo fluxo contínuo de informações na internet. A faixa foi indicada ao Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira na categoria Melhor Música, conforme registra o histórico oficial da OVM.


A discografia também inclui os EPs Egorama, de 2023, sobre o acúmulo de emoções e pensamentos intrusivos, e Perversum Relegere, lançado em 2025 com três faixas relacionadas às religiões e às consequências sociais de sua permanência. Entre as referências declaradas pela banda estão Radiohead, R.E.M., Nirvana, Queens of the Stone Age, Sonic Youth, Pink Floyd, Chico Buarque, Secos & Molhados e Os Mutantes.

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