Márcia Peixoto, psicóloga com 30 anos de experiência em gestão de pessoas e fundadora da Roots Talent, explica o que muda na prática dos dois lados do contrato de trabalho.
O passo a passo para as empresas
A adequação à NR-1 segue uma sequência clara. O primeiro passo é a aplicação de um questionário específico, validado pelo Ministério do Trabalho, junto aos colaboradores. "Na prática, a sequência é: a empresa aplica um questionário de levantamento junto aos funcionários. Esse questionário é específico e validado pelo Ministério do Trabalho", explica Márcia.
O instrumento avalia 11 dimensões do ambiente de trabalho. Com base nos resultados, é elaborado um plano de ação direcionado exatamente para os pontos críticos identificados em cada organização. "Não é qualquer ação. Precisa ser feito um plano de ação com base nos resultados obtidos por meio desse questionário", reforça a especialista.
Um detalhe fundamental: o processo precisa ser sigiloso. Os colaboradores respondem de forma anônima, sem identificação, para que as respostas sejam verdadeiras. "Ele não precisa ter medo, não precisa ter vergonha, porque isso é sigiloso e é anônimo. Para que se tenha fidedignidade nesse trabalho, é preciso que todo o processo seja seguro para o colaborador", afirma Márcia.
Os erros mais comuns
Querer fazer de qualquer jeito é o principal equívoco que Márcia observa nas empresas que tentam se adequar às pressas. Palestras isoladas, escuta ativa sem metodologia e ações desconexas não atendem ao que o Ministério do Trabalho espera. "Não são só palestras, não são só pequenos processos. Existe toda uma estrutura. Se eu tenho dentro da empresa o assédio moral, eu vou ter que erradicar mas eu só vou saber que isso está acontecendo se eu fizer uma pesquisa aplicada de forma correta", alerta.
Outro erro grave é tentar esconder os problemas reais. Para Márcia, essa postura prejudica a própria empresa. "O reflexo desse problema cai diretamente na empresa. Se eu não quero levantar as informações para tratá-las, vou continuar tendo afastamentos por doenças mentais. Não adianta querer burlar um processo", diz ela.
O que o auditor fiscal vai verificar
Quando o auditor chegar, ele vai querer ver o plano de ação inserido dentro do PGR, o Programa de Gerenciamento de Riscos exigido para todas as empresas pelas normas regulamentadoras. Mas não basta o documento existir. "O auditor fiscal vai buscar ver se esse levantamento aconteceu e se estão sendo feitas ações que realmente vão dar resultado. Ele vai estar em busca dos planos e de evidências de que esses planos estão sendo aplicados", explica Márcia.
A norma vale para empresas de qualquer tamanho. "Independente de pequena, de grande, de médio porte, onde tem pessoas, a saúde mental precisa ser tratada", reforça a especialista, lembrando que donos de empresa também são parte do problema. "Quantos donos de empresas estão aí com nível de estresse elevado, com descontrole emocional, fazendo coisas absurdas dentro das suas organizações porque eles não estão se tratando? Eles também já estão doentes".
O que muda para o trabalhador
Do lado do colaborador, a NR-1 representa uma virada importante. Com a norma em vigor, o trabalhador passa a ter a garantia legal de que o ambiente de trabalho será monitorado e que riscos como assédio moral, assédio sexual e sobrecarga excessiva precisarão ser identificados e tratados. "Ele passa a ter segurança de que o ambiente de trabalho não terá mais assédio moral, não terá mais assédio sexual, que a empresa vai trabalhar para organizar o nível de estresse de forma a dar a ele uma qualidade de vida melhor", explica Márcia.
Mas a especialista faz questão de deixar claro que a responsabilidade não é só da empresa. "Nós, como seres humanos, somos os principais responsáveis pela nossa saúde mental. O que é cobrado do empregador é que o ambiente seja saudável para que não gere a doença mas o profissional precisa ter consciência de que ele também pode equilibrar", afirma a psicóloga.
Márcia lista os principais indícios de que a saúde emocional já está sendo afetada pelo trabalho: queda de produtividade, alterações de comportamento, cansaço fora do comum e dificuldade de manter o mesmo ritmo de antes. Em casos mais avançados, exames clínicos podem revelar baixa de vitamina D, vitamina B e ferro, sinais físicos de que o estresse já está instalado.
Se o colaborador perceber esses sinais, o primeiro passo é buscar apoio dentro da própria organização. Se não houver resposta, a especialista é direta: "Se o ambiente está afetando e ele não está tendo ajuda dentro da empresa, a melhor coisa a fazer é sair. A doença mental, quando instalada, pode trazer sequelas e incapacitar. Então, o que ele deve fazer é buscar ajuda médica, buscar ajuda dentro da empresa e, se não ver resposta, buscar outro local para trabalhar", completa.
A Roots Talent oferece consultoria especializada para auxiliar empresas no processo de adequação à NR-1, com diagnósticos de riscos psicossociais e elaboração de planos de ação. Mais informações pelo Instagram @rootstalent, pelo e-mail contato@rootstalent.com.br ou pelo telefone (83) 9 9954-0637.
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