quarta-feira, 6 de maio de 2026

“Coração de mãe”: quando a metáfora encontra a saúde cardiovascular



Poucas expressões são tão populares quanto “coração de mãe”. Ela aparece quando se fala de cuidado, amor, proteção, preocupação e daquela sensação de que mãe sempre carrega um pouco do mundo dentro de si.
A frase, muitas vezes usada como metáfora, ajuda a traduzir um sentimento que parece não caber em explicações simples – mas, olhando para a saúde, essa relação entre emoção e coração também pode ser entendida de forma literal?


No mês em que é celebrado o Dia das Mães, a expressão ganha um novo significado quando observada pela cardiologia. Isso porque o coração, além de ser símbolo de afeto no imaginário popular, é também um órgão diretamente afetado por estímulos emocionais, pelo estresse e pela rotina de sobrecarga. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo, tendo provocado cerca de 19,8 milhões de óbitos em 2022. A maioria dessas mortes esteve relacionada a infarto e AVC, duas condições fortemente associadas a fatores como hipertensão, sedentarismo, alimentação inadequada e tabagismo.


O Dr. Jaifábio Lima, médico cardiologista, explica que a comparação entre o “coração de mãe” e o coração real pode ser feita justamente a partir dessa ligação entre sentimento e organismo. “Quando falamos em coração de mãe, estamos falando de sentimento: preocupação, cuidado, amor e proteção. Já o coração real é o órgão que funciona como uma bomba, impulsionando o sangue para manter as funções vitais do corpo. A analogia existe porque aquilo que a pessoa sente também pode provocar respostas físicas no organismo”, explica o especialista.


Essas respostas acontecem porque emoções intensas não ficam restritas ao campo emocional. Situações de tensão, preocupação constante ou ansiedade podem ativar mecanismos no corpo que interferem na frequência cardíaca e na pressão arterial. A American Heart Association aponta que o estresse crônico pode contribuir para a pressão alta, fator que aumenta o risco de infarto e AVC; e estudos também relacionam níveis elevados de hormônios do estresse, como o cortisol, a maior risco de hipertensão e eventos cardiovasculares.


Para o cardiologista, esse ponto merece atenção principalmente porque muitas mães vivem uma rotina marcada por acúmulo de responsabilidades. “O coração reage a preocupações e sentimentos mais intensos. Preocupação excessiva, tensão e ansiedade podem levar a quadros de descontrole da pressão arterial e da frequência cardíaca, prejudicando a saúde cardiovascular”, alerta o Dr. Jaifábio.


A sobrecarga emocional, comum na vida de muitas mulheres que dividem trabalho, casa, filhos, família e pouco tempo para si mesmas, pode se tornar um fator de risco quando passa a ser constante. Em situações extremas, o estresse pode inclusive desencadear uma condição conhecida como Síndrome do Coração Partido, ou cardiomiopatia de Takotsubo. A doença pode simular um infarto e costuma ser provocada por estresse físico ou emocional intenso. Pesquisas citadas pela American Heart Association mostram que a síndrome tem maior ocorrência em mulheres, especialmente a partir dos 50 anos.


“Existe uma síndrome chamada Broken Heart, ou Síndrome do Coração Partido, caracterizada por um quadro semelhante ao infarto após um estresse intenso, como luto, separação ou emoções extremas. No cateterismo, é possível observar lesão muscular cardíaca, mas sem obstrução das artérias coronárias”, esclarece o médico. Apesar de nem todo estresse levar a quadros graves, o corpo costuma dar sinais quando algo não vai bem. Dor no peito durante esforços, falta de ar desproporcional, inchaço nas pernas e sensação de palpitação estão entre os sintomas que não devem ser ignorados. “Esses sinais precisam ser avaliados. Muitas vezes a pessoa normaliza o cansaço, a palpitação ou uma dor no peito, mas o coração pode estar dando um aviso”, reforça o cardiologista.


No Dia das Mães, a homenagem também pode vir em forma de cuidado. Para o Dr. Jaifábio, proteger o coração passa por escolhas diárias e acompanhamento regular. “É importante manter a pressão arterial controlada, reduzir o consumo de sal, não fumar, evitar excesso de álcool, ter uma boa alimentação, praticar exercício físico regularmente, cuidar do sono e fazer consultas e exames laboratoriais de rotina”, orienta.


Se o “coração de mãe” é lembrado pela capacidade de amar, cuidar e proteger, a medicina reforça que esse coração também precisa de atenção. Em meio às homenagens da data, o alerta é simples: quem cuida de tanta gente também precisa encontrar tempo para cuidar de si.




SOBRE O DR. JAIFÁBIO LIMA


O Dr. Jaifábio Lima é médico formado pela Universidade de Marília (SP), com especialização em Cardiologia e Ecocardiografia pelo Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco (Procape), no Recife, considerado o maior pronto-socorro cardiológico do Norte e Nordeste.


Atualmente, atua como cardiologista e ecocardiografista na Unidade Pernambucana de Atenção Especializada (UPAE) e no Hospital Eduardo Campos, em Serra Talhada (PE), além de atender na Clínica Vidda.


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