segunda-feira, 15 de abril de 2024

Como clubes sociais podem lidar com assédios?



Com origens europeias no século 17, clubes sociais desempenham um papel fundamental na organização de cidadãos até os dias de hoje.
Sedes amplas, locais equipados para o lazer e exercícios físicos, salões de festas: toda uma estrutura gerida e mantida por seus membros em prol daquela comunidade.


No entanto, reportagem publicada por João Batista Jr., pela Revista Piauí, trouxe potenciais inefetividades na prevenção de assédios morais e sexuais em um dos principais clubes paulistas. O desafio para apuração de desvios comportamentais em clubes sociais deriva da própria natureza da instituição: fundados com base na fraternidade, autoproteção e cooperação, muitos casos podem acabar acobertados com base numa interpretação errônea desses valores.


Para evitar esse cenário, ter uma forte cultura pautada em princípios éticos e um programa de integridade que a proteja proporciona uma medida essencial para a segurança do ecossistema que inclui seus membros e funcionários. O que, de forma não exaustiva, previne danos reputacionais e mitiga riscos jurídicos. Um programa de ética (integridade ou de compliance) é um conjunto coeso de sistemas de controle organizacional com foco em evitar comportamentos antiéticos, com sua efetividade ligada diretamente à devida aplicação desses sistemas, chamados de componentes.


Em primeiro lugar, é essencial que haja documentos formais para o estabelecimento de consenso entre os membros do que é considerado ético, do que será feito na ocorrência de comportamentos antiéticos, de como serão investigados esses casos, e a escolha daqueles que o investigarão.


Em muitos casos, organizações se preocupam apenas em construir e ter um código de ética, que tem como foco proporcionar clareza ao definir padrões comportamentais aceitos e a definição estrutural de um departamento de conformidade. No entanto, ele não cumpre todas as funções, uma vez que políticas de responsabilidade para membros (em caso de descumprimento do próprio código) e políticas de investigação e correção que lidem com a apuração de denúncias, também devem ser listadas e conhecidas por motivos de transparência para aplicação de normas, de direcionamento para os envolvidos na operação/apuração e a proposição de uma lógica interna para todo o programa. 


Cada um desses documentos cumpre função essencial no processo de estabelecimento das bases éticas da organização, como guias que podem ser revisitados, revisados e cobrados em situações práticas.


A partir (e de modo conjunto) desses documentos, um ponto decisor ético deve atuar para a coordenação de atividades e priorização de demandas. O comitê de ética deve contar com uma estrutura adequada à composição do clube, com participação ativa da própria comunidade, pessoalmente e através de conselheiros. Esse comitê deve ser a força motriz e motivadora por detrás do desenvolvimento e da implementação do programa, coordenar suas atividades, comunicar seus avanços, aprimorar processos e resolver conflitos éticos. Sua atuação deve ser fiscalizada por todos e contar com altos níveis de transparência, com gravação de sessões ou redação de atas, bem como ser protegida de fatores externos e conflitos de interesses que podem destruir qualquer independência e isonomia no processo de avaliação do programa e de avaliações de conduta.


Após a construção de bases formais e da instituição dos responsáveis (com esses apontando o caminho a ser seguido para um clube mais ético), é hora de comunicar essa nova etapa a todos os membros. Treinamentos e comunicações tempestivas ajudam a esclarecer as documentações e a disseminar a cultura de forma efetiva, fornecem orientações e aprimoram a capacidade de reconhecer questões éticas em situações diárias. A formação em ética cria um ambiente propício à identificação e à discussão de dilemas éticos. Todos os membros podem compartilhar preocupações, aprender com as experiências uns dos outros e buscar orientação quando confrontados com questões complexas. Isso contribui com uma cultura de abertura e aprendizado na organização. 


Além das estruturas formais (Código e Políticas), operacionais (Comitê) e de engajamento (treinamento e comunicação), também devem existir componentes que dizem respeito à avaliação da situação ética de uma organização: o monitoramento e a auditoria. O monitoramento interno engloba a análise recorrente de práticas e comportamentos éticos, construído por meio de softwares e empresas especialistas na sua utilização.


Exemplos envolvem testes de integridade aplicados a colaboradores e membros para avaliar a percepção ética frente a decisões concretas e plataformas de diligências para verificar antecedentes processuais (criminais ou não), bem como a existência de fatores de pressão (como dívidas) que podem levar a chantagens por parte de terceiros mal-intencionados.


Já a auditoria, dentro desse contexto de implementação de programas em clubes, cumpre um papel fundamental na avaliação da efetividade do sistema como um todo. Se o acobertamento de situações antiéticas/criminosas existe em razão de um conflito de interesses ou de fatores pessoais, uma auditoria pode revisar todos os processos, identificar áreas de não conformidade e sugerir melhorias para o comitê (devidamente acompanhado por membros).


A auditoria e o monitoramento devem ser conduzidos por profissionais que possuam completa independência do processo, por vezes conduzido por profissionais de auditoria interna e outras por empresas que garantam essa prerrogativa. De igual modo, a operação de um canal de denúncias externo garante maior isonomia e conforto para que o denunciante compartilhe informações sem a preocupação de ser identificado e sofrer retaliações. A existência de uma linha institucional segura de comunicação de situações antiéticas/criminosas serve como catalisador de dilemas éticos enfrentados por determinado clube e sinal da efetividade de um programa de conformidade. Através do canal de denúncias, problemas são trazidos à tona e, quando devidamente tratados, permitem o aprimoramento de todos os demais componentes.


A busca por um ambiente seguro e ético demanda ações complexas e avaliação constante. No entanto, é possível alcançá-lo através da fraternidade e da cooperação, valores sob quais os clubes foram fundados.


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Vinicius Cassimiro Carvalho é contador com pós-graduação em Auditoria, Controladoria e Compliance e formação executiva em Compliance, Investigações e ESG. É sócio fundador da Kassy Consultoria & Gestão Empresarial, empresa especializada em Compliance & Investigação Corporativa e outras áreas de riscos e controles. Fundador da Democratizando, escola de negócios especializada em formar profissionais para as áreas de riscos e governança. Professor convidado na Mackenzie e PUC-Campinas. Membro da ACFE – Association of Fraud Examiners desde 2018.


Pedro César Sousa Oliveira é advogado e especialista em compliance. Realiza pesquisas no tema pela Aliant, conta com experiência no levantamento de informações (Background Check e Due Diligence) e possui artigos e livros sobre o tema.

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