terça-feira, 14 de abril de 2026

O coração brincalhão



Por Marco Antonio Spinelli* - Eu já fiz dois vídeos no meu Instagram sobre um discurso do ator e comediante Jim Carrey na formatura da Universidade Maharishi, no estado americano de Iowa, que pode ser encontrada no YouTube. A formatura foi em 2014.

Como nenhuma outra universidade conseguiu colocar essa figura em suas formaturas, esse é o único registro de Jim falando com uma turma de formandos. Esse discurso traz uma série de frases inesquecíveis, como: “O desejo de agradar vai te tornar invisível nesse mundo”, em que ele provavelmente alertava os formandos sobre a urgência de evitar tentar agradar a todos e encaixar a sua vida em projetos que não lhe façam sentido. A parte desse discurso que mais me tocou é a grande questão que ele levanta no seu encerramento: a sua vida pode ser guiada pelo amor ou pelo medo. Todo dia, fazemos, ou não, a escolha entre o medo e o amor. Ele termina seu discurso dizendo: “Entre o amor e o medo, escolha o amor, e não deixe que o medo sufoque seu coração brincalhão”.


 


Para a Psiquiatria, comediantes são um grupo de risco: apresentam mais quadros depressivos ou de uso problemático de drogas do que uma população de contadores, por exemplo. A figura arquetípica do palhaço que chora triste no camarim representa Isso: a tristeza profunda que habita a psique de muitos comediantes. O próprio Jim Carrey teve quadros depressivos bem severos e prolongados, que fez questão de comentar publicamente. Mas, durante um bom tempo de sua carreira, afirmava que o objetivo dos seus personagens era fazer as pessoas esquecerem as suas preocupações. Podemos afirmar que uma intenção em vários de seus trabalhos era cutucar o coração brincalhão adormecido em nossas correrias e rotinas. 


 


Lamento dizer que, entre o medo e o amor, quem costuma ganhar é o medo, sem sombra de dúvida. O seu cérebro, caro leitor ou leitora do outro lado da tela, é uma máquina preditora do futuro, e que a prioridade dele não é a sua felicidade, mas sim a sua sobrevivência. Portanto, o medo é uma importante ferramenta evolutiva. Nosso cérebro emocional tem alguns milhões de anos a mais do que nosso cérebro racional. Quando alguém tem uma crise de pânico, seu cérebro racional te diz que não está acontecendo nada, enquanto o cérebro emocional corre para o Pronto Socorro e entra gritando que está morrendo no saguão.


 


Uma burrice frequente e coletiva é achar que se pode desenvolver sua coragem passando por cima do medo. Fingindo que ele não existe. Desde um cidadão chamado Sigmund Freud, hoje desprezado pela Psiquiatria, que sabemos que varrer os sentimentos negativos, como o medo, para debaixo do tapete da repressão costuma só fazer que ele volte com o triplo da força. E que ele vai se fazer ouvir. De um jeito, ou de outro.


 


Dito isso, devo dizer que tenho muita simpatia pela escolha de não deixar o medo sufocar nosso coração brincalhão. O brincar e a brincadeira são também instrumentos evolutivos muito importantes. A criança que não sabe, ou não consegue brincar, tem uma dificuldade importante em seu desenvolvimento cognitivo. Explorar o ambiente, com um ímpeto brincalhão, é uma condição para o crescimento.


 


A vida nos subtrai de nosso coração brincalhão, e, sem ele, ficamos entregues, o tempo todo, aos nossos medos. Quem tem a sua infância encerrada muito cedo por uma realidade violenta e de privação, fica sempre com uma espécie de tristeza e raiva estampados no rosto. A ausência da capacidade de brincar pode estar na origem de muitas pessoas que não conseguem ter empatia ou se colocar no lugar do outro.


 


Tem uma cena do filme “Patch Adams”, com o inesquecível Robin Williams (que teve sua vida ceifada pela depressão, que pena), em que o estudante Patch Adams descobre o poder curativo de um coração brincalhão. Numa cena inesquecível, ele entra no quarto do paciente mais agressivo, mais irascível da enfermaria. Esse paciente tinha um Câncer de Pâncreas caminhando para terminal. Suas explosões de ódio eram a manifestação de seu medo e desamparo. Patch Adams entra vestido de anjo e começa a anunciar “as próximas atrações: morrer, dar o último suspiro, abotoar o paletó”; o cara faz menção de chamar a enfermeira ou arremessar algo no palhaço. Mas, num clarão, decide entrar na brincadeira: “descer à última morada, fechar os olhos”, até que os dois explodem numa gargalhada. A gargalhada que é a mais importante de nossa vida, que é gargalhar diante da morte. Esse sim é um coração brincalhão. E que também, ouso dizer, é o Coração da Coragem.   


 


 


 *Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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