terça-feira, 14 de abril de 2026

Erika Ribeiro revisita Villa-Lobos em novo álbum pela Gravadora Rocinante



Foto: Diego Bresani

A pianista Erika Ribeiro lança em 16 de abril o álbum Erika Ribeiro: Villa-Lobos, seu novo trabalho pela Gravadora Rocinante, em vinil e nas principais plataformas de streaming.
O disco aprofunda a pesquisa autoral da artista sobre o repertório brasileiro, propondo uma escuta renovada da obra de Heitor Villa-Lobos, a partir de uma abordagem de grupo acentuadamente rítmica e entranhada nas raízes culturais do país.



Este é o segundo lançamento de Erika pela Rocinante e marca um momento de expansão em sua trajetória. Se no disco anterior, lançado em 2021, a pianista se dedicou a transcrições para piano solo de obras de Stravinsky, Hermeto Pascoal e Sofia Gubaidulina, agora o gesto autoral se amplia ao coletivo. “Este segundo disco parte da mesma ideia do primeiro, onde a postura autoral é o ponto de partida para minhas criações musicais dentro do repertório clássico. Entretanto aqui não estou mais transcrevendo, estou investigando a linguagem de Villa”, explica. “A pergunta primordial foi: o que está aqui que precisa vir à tona?”.  



Diferente do trabalho solo e introspectivo que refletia o contexto pós-pandemia, Erika Ribeiro: Villa-Lobos nasce do encontro. A pianista divide a criação com Reinaldo Boaventura, Marcelo Galter, Ldson Galter e Natália Mitre, formando um grupo que incorpora uma instrumentação pouco convencional: piano acústico, wurlitzer, contrabaixo, marimba, berimbau e percussões diversas como, por exemplo, enxadas. “A autoria aqui é coletiva, mas a inquietação é a mesma: como olhar para esse repertório estabelecido de uma forma nova, verdadeira, brasileira?”, afirma. Erika também assina a direção artística ao lado do músico, poeta e produtor Sylvio Fraga.



A escolha dos instrumentos não partiu de um desejo de ruptura gratuita, mas de um processo de escuta profunda. “Foi planejado no conceito, mas totalmente aberto na execução”, conta Erika. “Queríamos investigar a rítmica presente na escrita de Villa-Lobos e reforçar o sotaque original de suas origens. Os instrumentos surgiram porque faziam sentido sonoro, porque já estavam ali, nessa memória musical que queríamos honrar.”


A partir dessa ideia foi escolhido um repertório que direcionasse a escuta para uma abordagem contemporânea da música de Heitor Villa-Lobos — em obras menos exploradas, como New York Skyline e Feijoada sem Perigo, esta última somente gravada apenas uma vez; peças que possuíam instrumentação clássica — como Choros n. 3 e Concerto para violão e pequena orquestra; e jóias do piano brasileiro como Alma Brasileira e Bachianas n. 4. O resultado revela um Villa-Lobos moderno e pulsante, convidando o público a redescobrir sua música sob nova perspectiva.



Grande parte dos arranjos é assinada por Marcelo Galter, maestro, compositor e produtor do disco, cuja trajetória musical, distinta da de Erika, foi decisiva para o resultado final. “Não foi uma pessoa impondo uma visão sobre a obra e sim uma pesquisa conjunta”, explica a pianista. “O trabalho era quase de escavação: o que a tradição escondeu que pode ser revelado?”



Ao longo do álbum, Erika alterna entre o piano acústico e o wurlitzer, instrumento que passou a integrar definitivamente sua paleta sonora. “Foi amor à primeira vista”, confessa. “Cada timbre responde a algo que já está latente na partitura de Villa-Lobos. A gente não inventou nada; ampliamos significados a partir do que ele já sugeria.”



A presença intensa da percussão e do gesto físico atravessa todo o disco, evidenciando o diálogo entre corpo e som. “A percussão torna o gesto visível, e isso volta para o piano de uma forma nova. Quanto mais tocávamos juntos, mais eu entendia que meu corpo também precisava dançar, pulsar”, diz Erika.



Quando questionada sobre o significado do álbum, a pianista é direta: “Comunhão. Este disco é sobre um encontro profundo entre pessoas, sons, tempos e raízes. Eu sozinha jamais teria chegado a esse resultado.”



Indicada ao Grammy Latino pelo álbum Erika Ribeiro: Sofia Gubaidúlina, Hermeto Pascoal e Ígor Stravinsky (Gravadora Rocinante, 2021), Erika Ribeiro construiu uma trajetória sólida e reconhecida no cenário musical. Vencedora de dez concursos nacionais, entre eles o III Concurso Nelson Freire, e premiada em mais de vinte competições, a pianista se apresenta regularmente nas principais salas de concerto do Brasil e no exterior. Doutora pela USP e professora da UNIRIO, Erika é reconhecida por transitar com naturalidade entre universos historicamente separados, como o erudito e o popular, construindo uma carreira marcada pela inquietude artística, pela pesquisa e pela constante reinvenção.



A parceria com a Gravadora Rocinante, segundo ela, é parte essencial desse percurso. “É uma gravadora que entende que a música clássica pode e deve se reinventar, dialogar e experimentar”, afirma. Erika Ribeiro: Villa-Lobos revela uma artista em plena maturidade, segura de seu caminho e aberta a novas possibilidades de escuta.



Sobre a expectativa em relação ao público, Erika prefere não impor roteiros. “Espero que as pessoas se permitam sentir. Que a escuta seja presente, sensorial, emocional. Villa-Lobos fala direto à alma e cada um vai encontrar na música aquilo que precisa encontrar.”



LADO A (13:32)



Viva o carnaval! (2:50)


Choros No. 3 (Pica-pau) (3:56)


Cirandas No. 15 (Que lindos olhos…) (3:29)


Choros No. 5 (Alma Brasileira) (2:10)


Carnaval das crianças (O ginete do pierrozinho) (1:07)



LADO B (17:24) 



Bachianas Brasileiras No. 4 (Dansa: Miudinho) (4:13)


Feijoada sem perigo… (1:58)


New York Skyline (3:09)


Concerto para violão e pequena orquestra W501, I. Allegro preciso (5:07)


Carnaval das crianças (A gaita de um precoce fantasiado) (2:57)





FICHA TÉCNICA



Direção artística: Erika Ribeiro e Sylvio Fraga


Direção musical: Marcelo Galter e Erika Ribeiro


Produção musical: Marcelo Galter


Gravação: Arthur Damásio, Flávio Marcos Batata e Pedro Durães


Assistente de gravação: Paulo Maganinho


Mistura: Pedro Durães


Masterização: Zino Mikorey at Vivid Dreams


Edição: Arthur Damásio


Coordenação artística: Jhê


Coordenação técnica: Flávio Marcos Batata


Projeto gráfico: Celso Longo + Daniel Trench


Direção de arte da capa: Rocio Moure e Diego Bresani 


Fotografia da capa: Diego Bresani 


Assistência de fotografia: Luca Narracci


Figurino: Rocio Moure


Beleza: Eduardo Barón


Fotografias no estúdio: Lucca Mezzacappa


Direção executiva: Bruno Vieira


Produção executiva: Alessandra Ramalho e Raquel Cardoso

Assistente de produção: Flora Gaiad


Produção local: Alethéa Perdigão


Afinador de piano: Carlos Gustavo Kersten





Mais detalhes:



LADO A (13:32)



1. Viva o Carnaval! (2:50)



Erika Ribeiro: piano 


Natália Mitre: marimba


Reinaldo Boaventura: percussão


Ldson Galter: contrabaixo 


Marcelo, Reinaldo e Ldson: enxadas



Marcelo Galter: arranjo a partir de ‘Viva o Carnaval!’ do Guia prático No. 11, versão para piano solo




2. Choros No. 3 (Pica-pau) (3:56) 



Erika Ribeiro: piano 


Reinaldo Boaventura: percussão


Ldson Galter: contrabaixo 


Marcelo Galter: Wurlitzer




Marcelo Galter: arranjo



3. Cirandas No. 15 (Que lindos olhos…) (3:29)



Erika Ribeiro: piano


Reinaldo Boaventura: percussão 


Ldson Galter: contrabaixo



Marcelo Galter: arranjo






4. Choros No. 5 (Alma Brasileira) (2:10) 



Erika Ribeiro: piano


Reinaldo Boaventura: percussão 


Natália Mitre: berimbau




Marcelo Galter: arranjo de percussão




5. Carnaval das crianças (O ginete do pierrozinho) (1:07)



Erika Ribeiro: Wurlitzer 


Reinaldo Boaventura: quente-frio




Marcelo Galter: arranjo de percussão






LADO B (17:24) 




1. Bachianas Brasileiras n.º 4 (Dansa: Miudinho) (4:13)



Erika Ribeiro: piano 


Natália Mitre: marimba


Reinaldo Boaventura: percussão 



Marcelo Galter: arranjo




2. Feijoada sem perigo… (1:58)



Erika Ribeiro: piano


Reinaldo Boaventura: percussão 


Ldson Galter: contrabaixo



Marcelo Galter, Erika Ribeiro, Ldson Galter e Reinaldo Boaventura: arranjo



3. New York Skyline (3:09)



Erika Ribeiro: piano 



4. Concerto para violão e pequena orquestra W501, I. Allegro preciso (5:07)



Erika Ribeiro: piano e Wurlitzer


Natália Mitre: marimba


Reinaldo Boaventura: percussão 


Ldson Galter: contrabaixo



Marcelo Galter e Erika Ribeiro: arranjo



5. Carnaval das crianças (A gaita de um precoce fantasiado) (2:57)



Erika Ribeiro: Wurlitzer 




Apresentação:



A partir do meu primeiro disco solo, comecei a trilhar um caminho autoral na música clássica. É claro que me motiva e me dá enorme prazer tocar o cânone do repertório pianístico de concerto, mas agora posso dizer que manipular certas obras para além da interpretação constitui parte fundamental da minha busca estética. 



É no trânsito entre supostas fronteiras musicais, na proposta de novos diálogos, na incorporação de sons de diversos lugares e culturas que consigo expressar o que poderia chamar de minha essência. Por isso, este disco tenta abordar a música de Heitor Villa-Lobos de um modo, antes de tudo, imaginativo. 



Movida por minha paixão pela música de Villa, nasceu uma primeira ideia: tratar o piano como um instrumento predominantemente percussivo, focando no ataque e no timbre produzido pelos martelos nas cordas. Resultou daí uma ligação mais orgânica entre o instrumento e os alicerces rítmicos da obra do compositor, que buscamos trazer à tona nos arranjos, sem jamais ferir seu intenso lirismo melódico e sua inventividade harmônica. 



Essa ideia foi acolhida com inteligência, entrega e amor por meus pares nesta aventura: Marcelo Galter, maestro que me apresentou novas referências, produziu e criou este som comigo, da primeira à última nota; Reinaldo Boaventura, percussionista que personifica toda uma orquestra de timbres e sons; Ldson Galter, que se juntou a nós como por simbiose, ligado a este repertório por um modo de escuta quase milagroso; Natália Mitre, que participou de momentos aos quais somente a sensibilidade de sua marimba – e berimbau! – poderiam trazer sentido; Sylvio Fraga, cuja visão ímpar adivinhou o grupo perfeito para realizar comigo este mergulho.



Revisitar Villa está longe de ser uma ideia nova. Tanto Tom Jobim quanto João Carlos Assis Brasil e Egberto Gismonti (só para citar alguns 

de nossos grandes criadores) já levaram a outras instâncias as partituras do maestro, seja compondo, seja arranjando, seja improvisando. De certa forma, me sinto convidada pela musicalidade desses artistas para experimentar o repertório villa-lobiano como o lugar de criação e descoberta que, por natureza, ele é.  

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