O artista plástico pernambucano Lucas Morais, 27 anos, pessoa no espectro autista, apresenta ao público a mostra inédita “Minha Arte, Meu Mundo: Pinturas de um Jovem Autista”, que abre nesta quinta-feira (9), no Museu de Arte Afro-Brasil (MUAFRO), no Recife Antigo. A exposição integra a programação do mês de conscientização do autismo e reúne cerca de 30 obras produzidas ao longo de sua trajetória. Com entrada gratuita e classificação livre, a mostra é voltada a públicos de todas as idades.
Natural da capital pernambucana, o expositor começou a desenhar ainda na infância. Aos quatro anos, utilizava o desenho como forma de comunicação e expressão de sentimentos. Foi a mãe, Rita Morais, quem percebeu cedo que aqueles rabiscos iam além de uma atividade lúdica e passou a incentivar o desenvolvimento artístico do filho. Com o tempo, os traços evoluíram para pinturas, consolidando uma produção que hoje ultrapassa 200 obras. A arte passou a ocupar papel central em sua vida, funcionando como meio de expressão, autonomia e interação social.
Ao longo da trajetória, o artista experimentou diferentes técnicas, como tinta a óleo e aquarela, linguagens historicamente consolidadas na pintura ocidental e oriental. A pintura a óleo, desenvolvida e difundida na Europa a partir do século XV, tornou-se uma das técnicas mais valorizadas da história da arte pela profundidade de cor, riqueza de textura e possibilidade de trabalho em camadas. Já a aquarela, com registros desde civilizações antigas como o Egito e amplamente desenvolvida na tradição chinesa e europeia, destaca-se pela leveza, transparência e controle delicado da água e do pigmento.
Atualmente, o artista concentra sua produção na tinta acrílica, técnica contemporânea, consolidada ao longo do século XX, que reúne características das linguagens anteriores, como a intensidade cromática do óleo e a fluidez da aquarela, aliadas à secagem rápida e maior liberdade de experimentação. A escolha evidencia não apenas versatilidade, mas domínio técnico, ao transitar por diferentes tradições da pintura.
Além dos aspectos estéticos, o uso da tinta acrílica também dialoga com práticas mais sustentáveis no processo artístico. Por ser à base de água, a técnica reduz o uso de solventes químicos mais agressivos, comuns em outras linguagens, contribuindo para um ambiente de trabalho menos tóxico e com menor impacto ambiental. No ateliê, esse tipo de escolha também reflete uma relação mais consciente com os materiais e com o próprio fazer artístico.
Ao optar pela pintura acrílica, o recifense evidencia sua capacidade expressiva e técnica. Cada obra resulta de um processo que combina esboço, construção em camadas e finalização detalhada, revelando um artista que desenvolve sua linguagem visual com consistência.
Parte desse percurso é acompanhada pelo professor e curador Geniz Marques, responsável por orientar o desenvolvimento artístico de Lucas. O processo criativo, em muitos momentos, acontece no ateliê, ambiente de aprendizagem, onde o artista estrutura suas ideias e explora possibilidades com liberdade.
No trabalho do autor das obras, a escolha das cores é guiada pela emoção, e não pela fidelidade ao real. Céus, rostos e paisagens assumem tonalidades que traduzem sentimentos, criando uma narrativa visual própria.
A produção do artista é marcada por temas ligados às relações humanas, como amor, amizade, empatia e liberdade. Parte das obras dialoga com referências da cultura nordestina, com cenas de forró, carnaval, paisagens do sertão e representações do povo sertanejo.
Elementos da religiosidade popular, como santos e padroeiros, aparecem com frequência, refletindo a presença da fé no cotidiano. Ao mesmo tempo, suas pinturas incorporam influências do universo dos desenhos e filmes, especialmente associados à The Walt Disney Company, reinterpretadas em contextos do dia a dia.
O trabalho dele também contribui para ampliar o entendimento sobre o autismo. O Transtorno do Espectro Autista não é uma doença, mas uma condição do neurodesenvolvimento que se manifesta de formas diversas em cada indivíduo.
Embora o Brasil ainda não disponha de um levantamento oficial consolidado, estimativas internacionais indicam que o autismo está presente em milhões de pessoas no mundo. Dados dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, apontam que a condição atinge cerca de uma em cada 36 crianças, ou seja, um indicador frequentemente utilizado como referência global.
É nesse universo amplo e diverso que se insere o trabalho do artista plástico que transforma sua vivência no espectro em linguagem visual, criando uma obra que dialoga com sensibilidade, técnica e experiência de mundo.
“Minha arte vem da forma como vejo e sinto o mundo. Quero mostrar que nós, pessoas autistas, somos capazes de criar, trabalhar e ocupar espaços na arte e na sociedade”, afirma o artista.
Com cerca de 17 anos de prática artística, o pintor vem ampliando sua presença em espaços institucionais. Em 2024, realizou uma exposição na Faculdade Pernambucana de Saúde. Entre 2023 e 2025, participou do Encontro Brasil e Estados Unidos de Autismo, realizado no Recife, levando sua produção para um evento de caráter internacional voltado à difusão de conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista.
As telas, produzidas em painéis de tecido, em tamanhos, por exemplo, 40 x 50 cm, são integralmente feitas à mão. A maior parte das obras é exclusiva e estará disponível para venda durante a exposição, com valores que variam entre R$ 450 e R$ 1.300. O público poderá adquirir os trabalhos por meio de pagamento via pix ou cartão.
Instalada no Recife Antigo, o Museu de Arte Afro-Brasil (MUAFRO) é um espaço cultural dedicado à valorização da arte, da memória e das expressões afro-brasileiras. O equipamento integra o circuito histórico da cidade e recebe exposições, ações educativas e atividades culturais voltadas à diversidade e à formação de público.
A curadoria da mostra é assinada por Geniz Marques, com produção de Erika Costa e assessoria de imprensa do Hub Baobá – Comunicação, Cultura e Inovação. A programação inclui visitas guiadas e conta com recursos de acessibilidade, como intérprete de Libras e estrutura física adequada ao público.
A visitação para o público ocorre entre os dias: 10, 11, 12, 15, 16 e 17 de abril, sempre no período da tarde, das 13h às 17h.
A exposição é realizada com incentivo da Secretaria de Cultura de Pernambuco, do Governo do Estado, do Ministério da Cultura e do Governo Federal, por meio de recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB PE). Mais informações sobre o trabalho do artista podem ser acompanhadas no Instagram: www.instagram.com/lucasmorais_azul
Serviço
Abertura: 9 de abril, das 18h às 20h
Visitação: 10, 11, 12, 15, 16 e 17 de abril
Horário: das 13h às 17h
Local: Museu de Arte Afro-Brasil (MUAFRO), Rua do Bom Jesus, Recife Antigo, Recife – PE
Entrada: gratuita
Classificação: livre
Mais informações: www.instagram.com/lucasmorais_azul

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