quinta-feira, 26 de março de 2026

Mulheres seringueiras e a luta contra o desmatamento são homenageados na Bienal de Arquitetura Brasileira



Uma casa inspirada nas moradias tradicionais de seringueiros da Amazônia será um dos destaques da primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, que estará aberta ao público a partir de 27 de março no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Desenvolvido pela arquiteta e urbanista acreana Marlúcia Cândida, com apoio do arquiteto e designer Marcelo Rosenbaum, o Pavilhão Casa Empate homenageia as mulheres seringueiras que participaram dos chamados “empates” — movimentos de resistência pacífica contra o desmatamento da floresta, especialmente nas décadas de 1970 e 1980.

 


Os empates surgiram com o avanço da pecuária sobre a Amazônia, quando comunidades extrativistas passaram a ser expulsas de seus territórios. Para impedir a derrubada da floresta, seringueiros se organizavam em grupos e se colocavam diante das árvores e dos motosserras, em ações coletivas e não violentas. Liderado pelo seringueiro e ativista Chico Mendes, o movimento ganhou projeção internacional e se tornou um marco na luta ambiental no Brasil.

 


Com o agravamento dos conflitos e o alto índice de mortes entre homens seringueiros, as mulheres passaram a ocupar papel ainda mais central nesses atos, muitas vezes à frente das mobilizações, ao lado de suas famílias. Em encontros tensos com policiais e jagunços, essas mulheres se colocavam com suas crianças à frente e recorriam a estratégias pacíficas, como o canto do hino nacional, ajudando a consolidar a resistência nos territórios. “A gente ia para a mata sem saber o que podia acontecer, mas sabia que precisava defender nosso lugar. A floresta era nossa casa”, relembra Emília Campos, Representante da Comunidade Seringueira da Cachoeira, no Acre.

 


Concebido como uma arquitetura-manifesto, o espaço recria o interior de uma casa inspirada nas residências tradicionais dos seringueiros, evidenciando a relação com o território e o protagonismo feminino no cotidiano da floresta. Com 113 m² e estrutura em madeira, o projeto incorpora soluções vernaculares, a exemplo do banheiro pensado como um ambiente integrado ao uso no meio natural, além de reunir elementos que retratam o dia a dia das mulheres, como utensílios de cozinha, peças de costura e objetos ligados ao cuidado e à vida doméstica.


 


Esse modelo construtivo, originado de técnicas difundidas no semiárido nordestino e adaptadas à Amazônia, influenciou a arquitetura moderna brasileira, especialmente no uso de pilares que elevam as edificações, os chamados pilotis, presentes em projetos como os do Plano Piloto de Brasília e em obras de Lina Bo Bardi, como o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand e sua residência no Morumbi. No pavilhão, essa herança aparece combinada a elementos da cultura material da floresta, como artesanato, cerâmicas, cuias, luminárias do tipo poronga, redes integradas à estrutura e peças como um colar de sementes de ouriço de castanha e um tapete inspirado nas raízes da paxiúba.

 


A proposta reflete a trajetória de Marlúcia Cândida, que cresceu no Acre e teve contato direto com esse modo de vida desde a infância. Durante o mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília, a arquiteta aprofundou essa relação em uma pesquisa de campo em reservas extrativistas da Amazônia, onde conviveu com comunidades locais para estudar a arquitetura vernacular da região — trabalho que deu origem ao livro “A colocação e a casa do seringueiro: exemplo de arquitetura vernácula da Amazônia”, que será lançado ainda neste ano e inspira a exposição. “Essa é uma memória que faz parte da minha formação. Eu cresci vendo essas casas e essa relação com a floresta”, afirma. “O pavilhão traduz essa vivência em espaço e homenageia mulheres que tiveram papel fundamental na defesa da floresta.”


 


O evento acontece até 30 de abril e, no dia 21, o Pavilhão Casa Empate receberá as lideranças seringueiras Emília Campos e Ronaira Barros para um encontro aberto ao público, com depoimentos sobre os empates e a vida na floresta, ocasião em que Marlúcia Cândida também lança seu livro sobre a arquitetura vernacular da Amazônia. Na edição de 2026, a Bienal de Arquitetura Brasileira distribui seus projetos em pavilhões inspirados nos biomas do país — Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal —, em diálogo com território, clima, cultura e modos de vida locais.



 


Sobre Marlúcia Cândida


Arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Marlúcia Cândida possui especialização em planejamento ambiental pela Universidade Federal do Acre e mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília. Com experiências internacionais, realizou cursos no POLI.design, em Milão, e no Instituto Europeu de Design, em Barcelona, além de ter colaborado com o escritório Simone Micheli Architectural Hero, na Itália. Em seus projetos, trabalha a relação entre memória, território e biofilia, incorporando princípios da neurociência aplicada à arquitetura.

 


Sobre a Bienal de Arquitetura Brasileira


Criada em São Paulo para aproximar a arquitetura do cotidiano das pessoas, a Bienal reúne profissionais de diferentes regiões do país em uma experiência imersiva voltada a novas formas de habitar e pensar os territórios brasileiros.

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