quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Trends digitais colocam cuidados emocionais em evidência



A Trend da Polaroid, que utiliza Inteligência Artificial para unir duas fotos em uma só, vem se espalhando pelas redes sociais. A tendência combina a imagem do usuário com a de celebridades ou até de pessoas já falecidas, criando um retrato realista que simula encontros para compartilhar online. Para a psicóloga clínica e logoterapeuta Graziela Campos, o recurso não representa riscos, desde que não substitua a vida real nem se torne uma fuga da realidade.

Ela comenta que essas imagens mexem diretamente com o campo das emoções. “Quando criamos uma foto abraçando uma pessoa que já partiu, essa imagem nos dá a sensação de proximidade. É como se enganássemos o cérebro e deixássemos o sentimento falar mais alto. A tecnologia acaba trazendo a sensação de que aquela pessoa está mais próxima do que realmente está”, explica.


Esse movimento, acrescenta Graziela, nasce de uma necessidade humana diante da ausência. “A busca por essas imagens vem de um lugar de saudade, de falta, de vazio, de luto. O processo de perda e a tecnologia acabam se complementando: sinto falta e a ferramenta vem preencher aquilo que me falta”, observa. Em alguns casos, esse uso pode ser positivo, oferecendo conforto. “Se ao criar essa imagem a pessoa sente um alívio e segue a vida, não há problema. A questão é quando se agarra àquela foto como se fosse uma verdade, transformando-a em refúgio permanente”, ressalta.


De acordo com a psicóloga, é nesse ponto que surge o risco. O recurso pode aliviar a tristeza ou amenizar a saudade, mas também tem potencial de intensificar o vazio. “Pode ser que a pessoa confunda o que é real com o que não é. Se apenas crio a imagem por curiosidade, por exemplo, tudo bem. Mas, quando passo a me acomodar a essa realidade criada, isso se torna prejudicial. Especialmente quando começo a construir uma vida paralela”, alerta.


Esse risco é ainda maior entre adolescentes e jovens, que muitas vezes se incomodam com a realidade em que vivem. Para eles, pode ser tentador buscar refúgio em uma versão alternativa de vida, ainda que criada artificialmente. “Criar outra realidade pode parecer mais fácil do que, com as próprias forças e intenções, enfrentar os desafios do cotidiano. É nesse ponto que a tecnologia pode se tornar um escape perigoso”, enfatiza.


Na avaliação da logoterapeuta, o fenômeno precisa ser analisado sob diferentes perspectivas, como morte, luto, sofrimento e idealização. “São muitas camadas a serem consideradas. Vale, sim, trazer esse tema para a terapia, mas sempre lembrando que o movimento deve partir do paciente, que fala, chora e compartilha sua dor”, afirma. “Não existe problema em aderir à trend e criar uma foto com um ente querido, desde que isso não paralise a vida. Ela precisa continuar mesmo com a ausência dessa pessoa”, conclui.

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