segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tocar violino na vida adulta pode ajudar no bem-estar? Veja o que dizem os estudos



Interesse por atividades que exigem foco e concentração cresce entre adultos; pesquisas associam prática musical a ganhos de humor, cognição e conexão social, mas sem substituir tratamento

A busca por atividades que ajudem a desacelerar a rotina colocou a música no radar de muitos adultos. O movimento aparece em um momento de maior atenção à saúde mental no país. Neste ano, o Ministério da Saúde iniciou a coleta da primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental do Brasil, voltada a mapear a ocorrência de transtornos mentais e o acesso aos serviços de saúde. Já o Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis em Tempos de Pandemia (Covitel) 2023 estimou que 26,8% dos brasileiros tinham diagnóstico de ansiedade no primeiro trimestre daquele ano. Entre os mais jovens, de 18 a 24 anos, a prevalência chegou a 31,6%.


Os reflexos desse cenário também aparecem no trabalho. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% em relação a 2024. Dentro desse grupo, os maiores volumes vieram de outros transtornos ansiosos e de episódios depressivos, que lideraram as concessões tanto em 2024 quanto em 2025.


Instrumentos antes vistos como distantes da vida adulta passaram, então, a ganhar outro lugar. O violino é um desses casos. Por muito tempo ligado à formação infantil e ao ensino clássico, ele aparece agora também como escolha de quem procura concentração, disciplina e um aprendizado fora da lógica automática da rotina digital.


A relação entre música e saúde não é nova, mas ganhou base mais sólida nos últimos anos. Em relatório publicado em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu resultados de mais de 3 mil estudos e concluiu que as artes têm papel relevante na promoção da saúde, na prevenção de agravos e no manejo e tratamento de doenças ao longo da vida.


Quando o recorte vai para as atividades musicais, a direção é parecida. Uma revisão de escopo publicada em 2021 na Frontiers in Psychology apontou que tocar um instrumento esteve associado a melhora de saúde cognitiva e bem-estar em diferentes grupos, com efeitos relacionados a humor, cognição, processos motores e interação social. O mesmo trabalho observou que atividades musicais podem atuar por mecanismos psicossociais como conexão, identidade e regulação emocional. 


Para o violinista Arthur Lauton, que hoje ensina iniciantes adultos, parte da procura vem de pessoas que sempre quiseram tocar, mas adiaram esse plano por trabalho, falta de tempo ou pela ideia de que já seria tarde para começar. Segundo ele, muitos interessados já têm o instrumento em casa, mas não conseguem sair do básico. “Nas primeiras aulas de violino é impossível tocar uma música sequer. Quem está começando passa muitas vezes meses só para aprender a passar o arco nas cordas e produzir um som mais decente”, afirma.


Lauton conta que já viu casos emocionantes, em que o violino foi importante até mesmo para amenizar o sofrimento e motivar em casos de problemas de saúde. Um deles é o de Lucia Warizaya, 70 anos, aluna que começou a aprender violino em novembro de 2022. Segundo ele, Lucia, que luta contra o câncer desde 2008, participou de um evento beneficente voltado à arrecadação de recursos para exames de mamografia e papanicolau em mulheres carentes e encerrou a programação tocando violino. “Fui convidada a desfilar, já que sou sobrevivente, lutando contra o câncer. No final do desfile, a cereja do bolo foi eu desfilar e tocar violino”, escreveu. Arthur afirma ainda que Lucia costuma resumir sua trajetória em três pilares: fé em Deus, poesia e violino.


A barreira técnica, diz Arthur, aparece logo no início. Sem teclas ou trastes que indiquem a nota, o instrumento exige precisão auditiva e controle corporal desde as primeiras tentativas. O violinista também observa que o ensino para esse público precisa partir de uma lógica de aprendizagem adulta, e não repetir modelos pensados para crianças, ponto que ele associa à diferença entre pedagogia e andragogia.


“No piano, a nota está ali o tempo todo. Se você apertou, é aquela nota. No violão, se colocou o dedo na casa certa, vai estar afinado. No violino, se você coloca um milímetro para o lado, desafinou”.


Para Lauton, o ponto central está em ajustar a expectativa de quem começa mais tarde. O foco, diz ele, não é formar músicos profissionais, mas ajudar adultos a aprender com método e constância. “Não existe pílula mágica. Tem que pegar o violino, fazer os exercícios e seguir o passo a passo. Com 20 minutos por dia, em quatro ou cinco meses a pessoa já toca alguma coisa. Com um ou dois anos, já começa a ler e tocar outras músicas que gosta”, afirma.


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Quem é Arthur Lauton?

Formado pelas universidades USP e UFBA, estudou com mestres como Claudio Cruz, Elina Suris e outros nomes da elite da música clássica nacional e internacional. Já tocou nas maiores orquestras do Brasil, incluindo a OSBA, onde ele estava no ano em que foi eleita a melhor orquestra do país em 2023. Na música popular já dividiu o palco com Caetano, Gil, Chitãozinho & Xororó, BaianaSystem, Sérgio Reis, Saulo, entre outros gigantes da música brasileira. Levou seu violino para 9 estados brasileiros e países como China, EUA e Chile. É criador do canal Como Tocar Violino, que se aproxima dos 250 mil inscritos e já soma 14 milhões de visualizações. Hoje ajuda milhares de pessoas a aprender violino do zero com leveza, didática prática e orientação profissional.

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