Nesse filme, temos o beabá da construção de um sistema violento e neofascista: o ódio por um inimigo comum, a uniformidade de roupas e a supressão de vozes discordantes e a violência direcionada a mulheres e pessoas mais fracas.
A adolescência é um período particularmente delicado para a tentação autoritária, e o filme mostra isso muito bem: o tédio e a falta de uma causa aglutinadora, o medo de não ser parte de um grupo, as feridas de famílias disfuncionais e de baixa autoestima. “A Onda” oferece a esses adolescentes a oportunidade de uma causa, um inimigo externo e o acolhimento do grupo, onde todos são tratados como irmãos. Essa foi a base da construção de um grupo autoritário, onde os dissidentes são tratados como inimigos e agredidos verbal e fisicamente.
Quando eu vi a foto de um dos meninos acusados de estupro coletivo no Rio de Janeiro, que chega ao depoimento com o rosto fechado e uma camisa com o logo e um desenho com o slogan em inglês “Regret Nothing”, “Não se Arrependa de Nada”, ligada ao influenciador “Red Pill” Andrew Tate, um influenciador e propagador de discurso autoritário e de ódio às mulheres, que fez fama e fortuna virando o líder virtual de uma horda de jovens de miolo mole, como demonstrado no filme “A Onda”, e que propõe, como diz o slogan, de exercer violência e selvageria sem nenhum arrependimento. Torne-se um psicopata e faça parte do grupo.
No Rio de Janeiro, onde se deu esse caso de um ataque sexual a uma menina de dezessete anos, organizado pelo ex-namorado, o número de delitos sexuais cometidos por adolescente aumentou 93% nos últimos quatro anos. Isso vem acompanhando essa escalada de grupos de ódio e Incells na internet profunda, que esses garotos conseguem acessar. Podemos juntar os pontos de adolescentes chutando cachorros na praia e esses meninos de Copacabana, que atacaram uma menina que não conheciam e saíram comemorando diante das câmeras do prédio, como se tivessem marcado um gol para seu grupo fascistóide?
A aversão ao ódio deve virar matéria do Ensino Fundamental. Quando eu estava na escola, a professora de Ciências nos propôs fazer cartazes contra o Tabagismo. As taxas de tabagismo caíram por décadas e agora voltam a subir com os cigarros eletrônicos. Está na hora de fazermos cartazes contra os grupos de ódio, ensinando como são suas técnicas de recrutamento: criação de um inimigo comum, supressão de dissidentes, empoderamento através da violência e isolamento das pessoas de suas famílias e vínculos sociais.
Cuidamos dos fracos e dos doentes desde os Neandertais. Isso nos tornou humanos. Isso garantiu a nossa espécie, que não teria sobrevivido na base do cada um por si. A tentação autoritária está prosperando e se espalhando pelo mundo e os resultados estão aí em nossas telas. Os jovens adoecem nessa transição, pois tem um Cérebro que ainda não atingiu a sua maturidade neurofisiológica e cognitiva. Ter autonomia é bom, mas é preciso pais e educadores mais atentos e dispostos a comprar a briga de dizer não ao ódio que entra em nossas casas em diferentes mídias.
A transição para a vida adulta tem, com muita frequência, a realização de atos de transgressão. Antigamente, explodir privadas na escola era essa transgressão. Grupos de Ódio estimulam a transgressão de valores que nos tornam humanos, como o respeito e o cuidado com os mais fracos.
Está na hora de regular o acesso desses caras aos grupos misóginos e que cultuam a violência.
**Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiano e autor do livro “Stress: o coelho de Alice tem sempre muita pressa”
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