Crédito: Isabella Lumara
O jornalista Leonardo Lemos, que participou dos projetos de Patrimônio Vivo e Notório Saber, conduz uma pesquisa sobre a origem do Coco de Roda entre Moxotó e Pajeú e destaca o potencial de nascedouro da região.
"Inácio é Afogadense de coração, mas nasceu em Custódia e toda sua família 'Gonçalo' é de lá; ele mudou ainda criança para Afogados, por volta da década de 1950, mas nasceu na região onde hoje é Custódia. Mas o mais importante nessa história é entender o contexto da época onde Quitimbu, distrito histórico do município, era mais importante que a sede Custódia à época da juventude de Inácio", destaca.
HISTÓRIA
"Quitimbu chegou a ser sede de uma região que contemplava até Sertânia, quando Sertânia ainda nem era município, e ao redor de Quitimbu, que concentrava feira e festas religiosas, saíram as famílias Calixto, que hoje é referência em Arcoverde, e saíram os Gonçalo e Venerando, duas famílias que migraram rumo a Afogados e Carnaíba e deixaram um legado enorme para o Coco de Roda na Região: Afogados com um grupo que virou Patrimônio Vivo, e Carnaíba com pelo menos quatro grupos adultos e dois infantis que se reúnem em festas e encontros específicos de tempos em tempos", detalha o jornalista e produtor cultural.
Era em Quitimbu onde se reuniam os bacamarteiros, para se apresentar pelos sítios da região, e entre uma visita e outra, a festa era regada por forró e samba de coco. Esse fenômeno fez toda a região brincar o coco com naturalidade: todos sabem sambar ou cantar as cantigas até hoje.
"Inácio é um alto representante desse fenômeno porque ele ainda era bacamarteiro: sua surdez veio de sua intensa participação no bacamarte; ele é literalmente um Mestre que deu sua vida às artes, já que brincou os folguedos, tanto bacamarte quanto coco, até o último momento que teve saúde para tal", relembra Leonardo.
"Pai era muito dedicado. No bacamarte só parou porque não aguentava tantas viagens, mas tinha guardadas as fardas, a arma e até a carteirinha; e no Coco ele sambou semanas antes de falecer, parecia que já sabia e queria se despedir, até realizamos uma festa de São Pedro no seu terreiro muito bonita", relembra Jeane Cecília, coquista e filha do mestre.
LEGADO
Com o prêmio de Notório Saber, honraria acadêmica criada pela UPE em 2021 que reconhece mestres e mestras das tradições populares pernambucanas, a equipe de produção do Mestre espera sensibilizar o IFPE Sertão, em Petrolina, para nomear o Campus Quilombola a ser construído em Custódia com o nome do Mestre. "Inácio é o Custodiense mais importante: seu legado é estudado pelo Governo como referência em Coco; agora veio esse título, dado na primeira tentativa que fizemos. Ou seja Inácio ainda é o Mestre de pelo menos uma centena de jovens e adultos que aprenderam com ele cantigas e histórias centenárias desse Sertão mágico que é a área quilombola que compõe as divisas de Custódia, Afogados e Carnaíba, então ele segue vivo nessas canções e nessas pessoas" reflete Leonardo.
“A facilidade no improviso, a capacidade de memorizar as canções mesmo com pouca leitura e escrita, a percussão humana que se incorpora ao samba e como esses elementos se convergem criando absoluta harmonia, garantindo uma autenticidade marcante e apresentando uma música de alta qualidade”, descreve Isabella Lumara, produtora cultural e pesquisadora da vida de Inácio - Isabella lançará em breve um filme sobre o Coco Negras e Negros.
"Ele foi a testemunha ocular desse processo de migração e consolidação de novos quilombos, e em sua arte cantou os pássaros, fauna e flora. Cantou até sobre fenômenos como o canto dos sapos na época da chuva. 'O sapo mora na beira do brejo' é uma das canções mais lindas e interessantes; mas ele ainda cantou o que acontecia no mundo ao longo do tempo, como o 'samba do astronauta' e 'águas do Rio Pajeú', essa última uma pérola que tivemos a honra de gravar em estúdio'. Por tudo isso, esse título é mais que merecido e agora partiremos para consolidar seu legado através da criação de um memorial para o Mestre e com seu nome titulando o Campus do IFPE Quilombola", completa o jornalista.
Inácio Pedro morreu em julho de 2025, aos 78 anos, por problemas respiratórios. Ainda em vida, apresentou-se com Gilberto Gil em 2003 e participou dos mais importantes palcos da música de Pernambuco, como FIG, Festival Lula Calixto, Munguzá, Xerém Cultural e Festivais Pernambuco Meu País. Os homenageados do "Prêmio Notório Saber" serão recebidos em cerimônia marcada para o dia 13 de maio, na UPE de Arcoverde. Acompanhe um pouco do legado da vida do Mestre Inácio @ instagram.com/inacioemiguelmestresdoleitao .
https://youtu.be/SQWVeivqhWw?si=yEWblomvEuOge3Kn
Águas do Rio Pajeu, Mestre Inácio Pedro e Coco Negras e Negros do Leitão

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