Muitos depoimentos se seguiram, com mulheres e jornalistas que foram tocadas pela presença energética e exemplo de Glória Maria. Muitas lágrimas e emoção, que respingaram nos meus óculos: eu mesmo lembrando das pessoas que com seus ensinamentos e exemplo me forjaram como médico e pessoa.
Nos dias seguintes, o Jornalismo mostrou, como qualquer área de atuação humana, seu lado brilhante e outro lado não tão brilhante, quando programas de fofocas noticiaram que as últimas duas semanas da incrível Glória Maria tinham sido marcados pela Depressão e Síndrome de Pânico. Um alerta para os leitores: se alguém usa o termo Síndrome de Pânico, geralmente não sabe nada do que está falando. Ou você tem Transtorno de Pânico, uma entidade clínica baseada e sinais, sintomas e critérios diagnósticos, ou crises de Pânico isoladas. Síndrome de Pânico é um termo consagrado por leigos, que não indica muita coisa. Mas, voltando a Glória Maria: esses veículos relatam que a jornalista teve uma reação muito negativa quando recebeu a notícia que sua doença, um Câncer de Pulmão metastático, não respondia mais ao tratamento e ela passaria aos Cuidados Paliativos, o que gerou a reação que alternou depressão e pânico. Reações bastante esperadas, como já documentado pela Literatura Médica e Psicológica há muitas décadas. Mas dá para examinarmos esse assunto de perto: por que ser encaminhada ao Cuidados Paliativos teve um impacto tão severo e que, eu ouso imaginar, acelerou a progressão da doença?
A médica Ana Cláudia Quintana fez um Ted Talk maravilhoso sobre cuidados paliativos com o título: “A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver”, que é nome de seu livro sobre o assunto. Ela descreve que “Palium” era o manto que protegia os guerreiros das intempéries. Paliativo significa cobrir, proteger, acolher. Qual é o problema de dizer para um paciente que ele está sendo encaminhado para esse grupo incrível, onde será cercado pelo amor e acolhimento de gente que entra justamente na hora que todo mundo se ausenta, inclusive o médico, que é treinado para vencer a doença e fica desconcertado quando perde? Para Glória Maria e para muitos pacientes, ser encaminhado para os Cuidados Paliativos significa a morte da esperança. E a Esperança, no caso, precisa ser realmente a última que morre.
Ana Cláudia Quintana relata, em outras palestras, casos de pacientes que sobreviveram de maneira perto da milagrosa quando passaram ao grupo de Cuidados Paliativos. O fato de encontrar paz e significado no acolhimento faziam que seu organismo reagisse como nunca. Mais uma dica para quem não é familiarizado com o tema: o que mata o Câncer não são os tratamentos. O que mata o Câncer é nosso Sistema Imune. Os tratamentos estão indo cada vez mais na direção de fortalecer e agilizar as células de defesa, para conter e equilibrar os processos oncológicos, transformando o Câncer em doença crônica. Amor, acolhimento e empoderamento do paciente ajudam em todos os sentidos. Talvez o encaminhamento correto fosse: “Precisamos reforçar nosso time para enfrentar essa doença: chama o Cuidados Paliativos”, ao invés de: “Não temos mais nada a fazer, chama o Cuidados Paliativos”.
Nosso corpo é um formidável sistema de manutenção da vida. Ele não desiste. Quando a Alma está junto, então, nem se fala. Talvez seja melhor chamar a ajuda desse grupo quando ainda se tem muito a fazer. Na hora do susto, do luto, do pânico diante da vida e da morte, tem gente muito boa para segurar a mão de quem está sofrendo. E traz significado a todo esse processo, inclusive abrindo caminho para a reconciliação com a ideia da Morte, um tabu difícil de enfrentar aqui no Ocidente.
*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”

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